ARTIGO

Sustentabilidade de fachada custa caro ao Brasil

Ao exagerar benefícios, ocultar danos ou apresentar ações superficiais como soluções estruturais para as crises climática e da biodiversidade, empresas moldam percepções, neutralizam críticas e retardam decisões políticas urgentes

GERALDO FERNANDES, coordenador do Centro de Conhecimento em Biodiversidade (UFMG); STPHANNE FERNANDES, pesquisadora no Florida International Universty; DOMINGOS RODRIGUES, membro do Centro de Conhecimento em Biodiversidade (UFMT)

O mundo já sabe o que está em jogo: a perda acelerada da biodiversidade, o aumento das temperaturas globais e a instabilidade climática deixaram de ser projeções futuras, mas fatos mensuráveis, cotidianos e cumulativos. Ainda assim, insistimos em fingir que discursos verdes, relatórios de marketing e selos de fachada podem substituir ações reais. Não podem.

Não venceremos a crise climática nem a crise da biodiversidade enquanto empresas continuarem produzindo desinformação sobre seus impactos ambientais; enquanto parlamentares se omitirem; enquanto leis ambientais forem criadas para não serem cumpridas; e enquanto a fiscalização permanecer frágil, capturada ou inexistente. Os sinais de pontos de inflexão ambiental, aqueles a partir dos quais não há retorno a um clima funcional e a ecossistemas saudáveis, estão se acumulando. A pergunta já não é se haverá responsabilização, mas quem será responsabilizado.

O discurso corporativo contemporâneo se apoia fortemente nos critérios ESG. Em tese, trata-se de um avanço. Na prática, porém, grande parte dessas iniciativas se resume a uma encenação bem produzida: promessas vagas, indicadores pouco transparentes e campanhas publicitárias que simulam compromisso ambiental sem alterar o núcleo das práticas produtivas. É o chamado greenwashing, quando a aparência verde serve para ocultar impactos reais.

Greenwashing não é um desvio ético menor, é uma forma sofisticada de desinformação ambiental. Ao exagerar benefícios, ocultar danos ou apresentar ações superficiais como soluções estruturais, empresas moldam percepções, neutralizam críticas e retardam decisões políticas urgentes. Em alguns casos, chega-se ao absurdo de classificar como "sustentáveis" práticas que degradam solos, comprometem recursos hídricos ou ameaçam a segurança alimentar.

Um dos terrenos mais sensíveis, e mais explorados por esse tipo de narrativa, é o da restauração ambiental. Restaurar não é sinônimo de plantar árvores. A restauração ecológica exige a recuperação das funções do ecossistema, da biodiversidade nativa, da conectividade entre habitats e dos processos naturais que sustentam a vida. Sem isso, há apenas maquiagem ambiental.

O uso de espécies exóticas ou o plantio de árvores em ambientes onde elas nunca existiram, como campos naturais, cerrados abertos ou áreas de caatinga, tem sido frequentemente contabilizado como restauração. Não é. Essas práticas podem gerar novos impactos, como alterações no regime hídrico, aumento do risco de incêndios e perda de espécies nativas, ainda que sejam divulgadas como "soluções baseadas na natureza", muitas vezes com aval institucional.

Quando empresas e governos anunciam áreas "restauradas" sem qualquer evidência científica de retorno da biodiversidade ou da funcionalidade ecológica, o passivo ambiental permanece, apenas muda de nome. Recursos públicos e privados deixam, assim, de ser investidos onde realmente fariam diferença — na ciência aplicada, no monitoramento de longo prazo, nos viveiros de espécies nativas e na participação das comunidades locais.

A popularização de selos ambientais deveria ser parte da solução, mas também se tornou parte do problema. Certificações frágeis e auditorias pouco transparentes transformaram a sustentabilidade em mercadoria e reforçaram a ilusão de progresso.

É nesse contexto que se torna urgente fortalecer mecanismos independentes de monitoramento e transparência. O Brasil, um dos países mais biodiversos do planeta, não pode continuar refém de narrativas publicitárias. Precisa de dados abertos, indicadores científicos confiáveis e fiscalização efetiva.

A escolha é política, econômica e moral. Plantar árvores não é, necessariamente, proteger ecossistemas. Chegou a hora de trocar slogans por ciência, marketing por responsabilidade e promessas por resultados. Caso contrário, quando o ponto de não retorno for ultrapassado, não faltará quem procure culpados, e eles terão nome, CNPJ e mandato.

*Texto desenvolvido com a colaboração de Fábio Roque (Centro de Conhecimento em Biodiversidade - UFMS)

 


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