Artigo

Brasil à deriva: entre promessas e retrocessos

É preciso restabelecer os freios e contrapesos que sustentam uma democracia verdadeira e devolver ao Estado sua função essencial: servir ao cidadão

NILSON LEITÃO, ex-deputado federal

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva retornou ao poder em 2022, prometendo "União e Reconstrução". Três anos depois, é impossível ignorar a distância entre o discurso e a realidade. O país não está mais unido — e muito menos reconstruído. Pelo contrário: acumula divisões, retrocessos e uma sensação crescente de abandono institucional.

É verdade que reformas importantes foram aprovadas, como a Tributária do Consumo e a da Renda. Mas esse mérito não apaga o fato de que o governo apresentou outras 25 medidas para aumentar impostos, sempre embaladas pelo discurso de "justiça tributária" ou pela necessidade de cumprir uma meta fiscal criada pelo próprio governo. Enquanto isso, gastos "fora da meta" se multiplicam, num modelo de irresponsabilidade fiscal.

O resultado é cristalino: a dívida pública deve saltar para 83,8% do PIB durante este ano — 10 pontos percentuais a mais em apenas quatro anos. A carga tributária também não para de subir. Entre 2023 e 2024, aumentou 2,3 pontos percentuais, alcançando 32,3% do PIB. E tende a crescer ainda mais com a desaceleração econômica que estava prevista para 2025. Um terço de tudo o que o país produz vira imposto — e o retorno para a população é cada vez mais pífio.

Alguém viu melhora na saúde, na educação ou na segurança pública? O que se vê é deterioração acelerada. Em 2024, o Brasil registrou sua pior posição na história do Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional: 107º lugar entre 180 países. E isso antes dos escândalos envolvendo descontos indevidos no INSS e dos episódios de conflitos de interesse envolvendo ministros da Suprema Corte. A percepção de corrupção melhorou em 2025? Difícil acreditar.

As estatais federais também refletem o descontrole. Até agosto, acumularam prejuízo de R$ 8,9 bilhões — o dobro do ano anterior. E não por acaso: decisões judiciais recentes abriram espaço para nomeações políticas sem relação com o setor ou com a função, rasgando uma lei aprovada pelo Congresso. O resultado está aí, estampado nos balanços.

No cenário internacional, o Brasil despencou para a 60ª posição entre 64 países no Ranking Mundial de Competitividade (IMD). Na educação, o Brasil ficou entre os piores no ranking global de matemática, abaixo da meta mundial, à frente apenas do Marrocos. Já no Índice Global de Paz, outra decepção: posição 130 de 163 países, classificando o Brasil como país de baixa segurança geral, estando à frente apenas da Venezuela e da Colômbia na América Latina. As quedas acompanham a perda de popularidade do presidente e a escalada de medidas populistas destinadas a manter apoio político, sem qualquer preocupação com quem pagará a conta.

A insatisfação dos brasileiros não é um mistério. Ela é consequência direta da instabilidade econômica, do aumento de impostos, da insegurança crescente e do custo de vida sufocante. Tudo aquilo que o governo diz combater, mas que, na prática, alimenta com suas próprias escolhas.

Está evidente que a esquerda não enfrentará os desafios que o país exige. Cabe aos atuais e novos congressistas assumirem essa responsabilidade com coragem, seriedade e propostas concretas — para garantir a segurança da população, combater a corrupção, melhorar a qualidade da educação e da cultura e oferecer um melhor atendimento em saúde pública.

É preciso restabelecer os freios e contrapesos que sustentam uma democracia verdadeira e devolver ao Estado sua função essencial: servir ao cidadão. Se queremos tirar o Brasil da sombra e da escuridão, é indispensável que os eleitos governem com equilíbrio, responsabilidade e segurança jurídica. Como disse Abraham Lincoln, "pelo povo e para o povo". O país não pode continuar à deriva.

 


Mais Lidas