Visão do Correio

Tensões, ameaças e acordo: o tabuleiro global em 2026

A proximidade desses dois eventos – um militar e outro comercial – mostra uma divergência de modelos no mundo contemporâneo: um baseado no uso direto da força e outro em instrumentos econômicos para gerar influência

 A atual disposição demonstrada pelos Estados Unidos em impor seu poderio bélico e suas ambições imperialistas dá sinais preocupantes. Sob o mandato de Donald Trump — apesar da resistência política interna e da desaprovação de parcela significativa dos eleitores norte-americanos —, 2026 começou com operações militares e ameaças que acendem o alerta pelo mundo. Diante das pretensões declaradas do presidente republicano, vários fóruns globais avaliam os riscos de rompimentos da ordem baseada em regras estabelecidas conjuntamente em defesa da harmonia entre as nações.

Neste domingo, Trump partiu pra cima de Cuba ao dizer que deve "fazer um acordo". "Não haverá mais petróleo nem dinheiro para Cuba — zero! Sugiro fortemente que façam um acordo, antes que seja tarde demais", publicou no Truth Social, sua plataforma de rede social. Já no sábado, os EUA comandaram o lançamento de uma série de ataques em larga escala contra o grupo jihadista Estado Islâmico em todo o território da Síria. A ofensiva foi em represália após a ação que, em dezembro do ano passado, matou três americanos no país do Oriente Médio, segundo as agências que atuam na conturbada região.

Mas, uma semana antes, em 3 deste mês, a operação que mais surpreendeu: a invasão militar à Venezuela e a captura de Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores. Lideranças diversas e especialistas apontam que essa ação pode colocar os EUA fora da ordem jurídica mundial.

A intervenção em território venezuelano foi um dos episódios mais dramáticos na política externa norte-americana das últimas décadas, uma vez que violou princípios básicos de soberania e direito internacional, representando uma ameaça à estabilidade global e aos valores democráticos. Além disso, o fato de o motivo geopolítico central desse movimento estar ligado tanto à importância estratégica dos recursos naturais venezuelanos — especialmente petróleo — quanto à rivalidade direta com potências como China e Rússia, reforça que as peças do tabuleiro estão se mexendo de uma maneira que merece atenção.

Paralelamente à jogada dos EUA sobre a Venezuela, na sexta-feira passada o Mercosul e a União Europeia concluíram um acordo de livre comércio histórico, encerrando mais de 25 anos de negociações e criando uma área comum envolvendo cerca de 780 milhões de pessoas e um grande contingente de PIB global. Esse passo indica uma aposta no multilateralismo, na cooperação econômica e em normas previsíveis, justamente no momento em que o unilateralismo e o uso da força parecem prevalecer na política externa dos EUA.Enquanto Washington recorre à coerção militar, sem contar chantagens abertas, para alcançar objetivos estratégicos, as lideranças do Mercosul e da UE escolhem avançar em um instrumento geoeconômico de integração.

A proximidade desses dois eventos — um militar e outro comercial — mostra uma divergência de modelos no mundo contemporâneo: um baseado no uso direto da força e outro em instrumentos econômicos e diplomáticos para gerar cooperação e influência. Esse conjunto de fatos evidencia que a geopolítica contemporânea não é mais dominada por um único polo de poder, mas por uma interação de instrumentos econômicos, políticos e militares que competem em arenas distintas — desde mercados globais até princípios de direito internacional.

A invasão à Venezuela e as constantes tensões criadas por Trump tornam ainda mais urgente a busca de alternativas de diplomacia entre blocos, países e organismos mundiais consolidados. O poder militar e os recursos naturais não podem ser usados como estratégias para redefinir fronteiras, alianças e normas internacionais. E isso não apenas por motivos econômicos, mas, principalmente, para preservar um sistema global baseado em regras, estabilidade e cooperação.

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