O filme O agente secreto faz história. Pela primeira vez, uma produção brasileira ganha duas categorias em uma mesma edição do prestigiado Globo de Ouro: a de Melhor filme de língua não inglesa e a de Melhor ator em filme de drama. Para além do ineditismo, a noite do último domingo precisa ser celebrada pelo fato de mais uma produção brasileira ser reconhecida internacionalmente ao lançar luz sobre um período da história do Brasil que não pode ser esquecido. Nesse sentido, Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura acertadamente levantam as estatuetas ecoando a importância das produções artístico-culturais no enfrentamento aos extremismos.
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Wagner Moura interpreta um professor universitário que, para fugir de agentes da ditadura em razão das atividades subversivas, deixa São Paulo e volta para a sua cidade natal. Mas o Recife de 1977 também não está imune às garras do autoritarismo, mergulhando Marcelo/Armando, o personagem principal, em um thriller de segredos, amores e violências. Trata-se de um filme sobre "memória — ou sobre a falta de memória — e sobre trauma geracional", nas palavras do ator que, ao receber o prêmio, enfatizou ainda a esperança no contraponto — "se o trauma pode ser passado entre gerações, os valores também podem" — e a importância de dar continuidade a produções com essa temática — "a ditadura ainda é uma cicatriz aberta em nossa vida brasileira", justificou.
Sob essa lógica, o filme de Kleber Mendonça enriquece o debate ao retratar os impactos da ditadura militar fora do eixo Rio-Brasília-São Paulo. O regime de exceção causou cicatrizes profundas também ao Nordeste. A Comissão Nacional da Verdade (CNV) estima a existência de ao menos 40 centros, clandestinos e oficiais, que reprimiram opositores da ditadura em áreas urbanas e rurais da região. Não se pode perder de vista, ainda, a interrupção de reformas estruturais para estados nordestinos por parte dos militares.
A CNV chegou a um total de 434 mortes e desaparecimentos políticos em todo o país, de 1964 a 1988, com uma concentração de vítimas, 351 mortos, durante a vigência do Ato Institucional nº 5. A retomada democrática, em 1985, não extirpou os autoritários. Ao contrário, eles seguem trabalhando contra as liberdades individuais, em prol de projetos baseados na violência e na falta de diálogo, como se viu na intentona golpista de 8 de janeiro de 2023. São diversos os subterfúgios para camuflá-los, exigindo, portanto, vigilância constante e coletiva — inclusive por meio das artes.
Ao receber a estatueta do Globo de Ouro, Kleber Mendonça conclamou os jovens a fazerem cinema e contribuírem com a causa. Do palco, dirigiu-se aos americanos. Logo depois, em conversa com jornalistas, aos brasileiros. "Quero muito ver jovens cineastas brasileiros fazendo histórias sobre o Brasil no cinema. Quando a gente fala da nossa casa, todo mundo ouve ao redor do mundo." Não cabe silêncio diante de práticas autoritárias. Falar sobre ditadura, recorrendo a todas as formas democráticas de expressão, é dever civilizatório.
