*Toinho Castro - Poeta e multiartista
Que fique claro, O agente secreto no Oscar é o cumprimento de uma profecia feita pela minha mãe, dona Lenira, anos atrás. Ela disse a Kleber: vou ver você no tapete vermelho do Oscar. Dito e quase feito. No próximo dia 15 de março, Emilie, Kleber, dona Tânia, Wagner Moura e a turma da pesada do filme estarão pisando no dito tapete vermelho, sob flashes, holofotes, aplausos e afins. Para o delírio da minha mãe que, aos 89 anos, segue apaixonada por cinema, desde os primeiros filmes, menina ainda, no cinema paroquial da igreja de São Pedro, em Natal, no Rio Grande do Norte.
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Tendo a dizer que eu e Kleber crescemos juntos, não por sermos amigos desde a infância, mas porque nos conhecemos na universidade pública, onde crescemos pra valer, descobrindo o amor mútuo por filmes, músicas e outras tantas coisas interessantes e praticamente mágicas. Ali começamos as experiências que levariam Kleber ao cinema, eu à literatura, e nossas amigas e amigos para o infinito e além, onde encontraram reconhecimento e realização. A universidade é uma máquina de realizar sonhos.
E, quanto mais Kleber avançava no seu trabalho e seu talento, mais a minha mãe se enchia de orgulho dele. Acho que ela realizou com Kleber e seus filmes o seu sonho de uma vida cinematográfica; seu sonho hollywoodiano de ser uma estrela. Imagina, ela queria fugir com o circo quando menina! Cantava na rádio Poty, ia ao cinema praticamente todos os dias e se alimentava do glamour constelar das revistas sobre os astros americanos. Com ela e seu amor, aprendi Michel Legrand; aprendi Melodia imortal e Suplício de uma saudade; aprendi Audrey Hepburn e James Stewart.
Ela aprendeu O som ao redor, Aquarius, Bacurau, Retratos fantasmas, O agente secreto… que tem uma personagem chamada Lenira; que tem uma Dona Sebastiana, em quem vejo minha mãe e tantas mães nordestinas, com seus conselhos impagáveis, seus bordões espertos, sua lucidez e determinação diante dos desafios que se impõem diante de gerações de mulheres brasileiras.
Dona Lenira vislumbrou, em cada passo de Kleber, um caminho com destino certo. O tapete vermelho. E cada prêmio que nosso cineasta foi amealhando, foi uma confirmação do que ela via no seu tarô imaginário, no seu oráculo de celuloide. Se a menina pudesse viajar no tempo, desde o cinema paroquial até o próximo 15 de março, se surpreenderia com o impossível se tornando possível, como quase sempre acontece com o impossível, em algum momento. Mas não é a menina, e, sim, a senhora de 89 anos, ainda menina no fundo da retina, que assistirá à grande festa do cinema, quando estaremos em festa, muito perto de botar as mãos no Oscar.
Será o maior futebol da história do Brasil, porque, agora, somos, como nunca, o que sempre fomos, o país do cinema. O país de uma câmera na mão e ideias na cabeça. O país de Macunaíma, com Grande Otelo e o país de Norma Bengell, que certa tarde encontrei numa rua chuvosa do Rio de Janeiro e sorriu pra mim; o país de Vera e A hora da estrela. O país da contradição, que fecha salas de cinema, brilha em Cannes e chega ao Oscar.
E o Oscar, afinal, é tão importante assim?
Ele amplia o alcance de um filme e de toda uma cultura que ele carrega junto. É um dispositivo de mercado, de multiplicação de mercados. Porque, quando um filme brasileiro chega lá, o Brasil chega junto. Dona Lenira chega junto. E, aí, o Brasil se espalha, mais ainda do que já gosta de se espalhar. E contagia, mais ainda do que já gosta de contagiar. O Oscar importa porque é festa, e a gente é de festa. Lá em casa sempre foi assim, de se reunir pra ver o Oscar, de torcer e vibrar. Porque a gente ama Cinema, assim, com C maiúsculo.
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Não sabemos que resultados o tapete vermelho e a cerimônia do Oscar trarão. Não fazemos ideia de como terminaremos a noite, mas começaremos com a alegria e cheios de doces esperanças, que são as melhores de se viver. Tem um Oscar que é um boneco dourado e um outro Oscar, que é um símbolo de coisas que estão dando certo, que se movimentam em direção ao futuro. Coisas que se tornam, nem que seja por uma noite de brilho e encantamento, a representação de um país e o desejo de um povo.
Não sabemos o que virá, Dona Lenira, se seus melhores sonhos e previsões se concretizarão… mas vai ser divertido à beça!
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