VISÃO DO CORREIO

O labirinto da insegurança no Brasil

O país não pode mais se contentar em celebrar quedas marginais em taxas de violência

O Brasil começa 2026 com um antigo e complexo problema em sua agenda: a violência. Apesar de os dados mais recentes do Ministério da Justiça e Segurança Pública apontarem para a redução de 11% no número total de assassinatos em 2025 — a quinta retração consecutiva —, as estatísticas seguem desafiando o país. Entranhada na rotina do cidadão, a insegurança permanece alimentada por facções criminosas e pelo crescimento alarmante de ocorrências específicas, como o feminicídio, que registrou a marca de quatro vítimas por dia no último ano.

A diminuição dos homicídios é uma informação importante e demonstra que políticas públicas eficientes produzem resultados. Mas, ao mesmo em que avanços são constatados, a realidade que se impõe em consequência da violência é de uma sociedade fraturada. O levantamento do órgão mostra que as regiões Norte e Nordeste concentram as maiores taxas, especialmente em municípios marcados pela disputa do controle do tráfico de drogas. Por sua vez, a tragédia dos feminicídios revela um retrato assustador com o recorde histórico de 1.470 mortes em 2025.

Para enfrentar a questão, é preciso, primeiro, entender que os crimes se movem por alguns eixos fundamentais. A falha na investigação é um deles — menos de 40% dos homicídios no país são resolvidos. Dessa forma, a impunidade se transforma em combustível para o criminoso, que se sente confortável para operar diante de um Estado com dificuldades de punir. Outro ponto de extrema relevância é o abismo social brasileiro, com os jovens negros das periferias das cidades no topo das estatísticas, indicando que a violência tem cor e endereço. No que se refere aos assassinatos de mulheres, o panorama demonstra que o endurecimento penal sozinho não tem sido suficiente para conter os registros. Nesses casos, prevenção, acolhimento, fortalecimento da fiscalização de medidas protetivas e trabalho de desconstrução do machismo estrutural são urgentes.

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Tantas fragilidades persistentes indicam a necessidade de seriedade e responsabilidade. As respostas exigem o abandono de soluções rasas para dar lugar a um sistema profundo e baseado em investimento, inteligência, tecnologia e capacitação. Investigações bem planejadas e amparadas pelas instituições são essenciais. Modelos que apostam em programas eficazes de conscientização, na implantação de escolas em tempo integral, em ensino de qualidade nas instituições públicas e na assistência a jovens em situação de risco já demonstraram sucesso e são exemplos que devem ser multiplicados.

O Brasil não pode mais se contentar em celebrar quedas marginais em taxas de violência. Melhorar as estatísticas de maneira ampla requer coragem para admitir que alguns sistemas não funcionam mais e que não existe solução única. O país precisa estar completamente integrado no combate a todos os tipos de violência se quiser assegurar o direito de proteção dos seus cidadãos. A redução de algumas tipificações e o crescimento de outras escancaram os múltiplos elementos envolvidos. Diante desse cenário, os números deixam de ser somente um quadro: eles passam a convocar o poder público para a tomada de decisões e a sociedade para participar das ações.

 

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