
Talvez seja uma visão Poliana da minha parte, mas, no fundo, sempre acreditei que os espectros políticos de esquerda e direita possuem mais pontos de convergência do que de oposição. Houve uma época, inclusive, em que imaginava o antagonismo partidário apenas como uma etapa histórica — um estágio que, eventualmente, seria superado por uma evolução no debate público. Hoje, devo admitir, tenho uma perspectiva mais pessimista sobre o assunto, contudo foi surpreendente perceber, nas últimas semanas, que essa polarização encontrou um limite inesperado: o cachorro Orelha.
Você provavelmente conhece a trágica história do cão morto com requintes de crueldade em Santa Catarina, logo no quarto dia deste 2026. A polícia ainda investiga os detalhes do atentado contra o animal. Uma coisa, entretanto, já se consolidou: descobrimos que existe, sim, algo capaz de superar as mais profundas divergências ideológicas — ainda que esse elo seja uma tragédia.
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Pessoas de direita, de esquerda, católicas, evangélicas, do Sul, do Norte, urbanas ou do interior. A única unanimidade que este país testemunhou nos últimos anos foi a comoção por um vira-lata, criado de forma comunitária às margens de uma praia. Ao observar essa união nacional pedindo justiça, senti um breve acalento. Afinal, a causa era nobre e a indignação, geral. Contudo, como em tudo na vida, é imperativo mergulharmos alguns centímetros além da superfície. No caso da comoção pelo Orelha, vale refletir sobre dois pontos cruciais.
Primeiro: uma união pautada exclusivamente pelo trauma requer cuidados. É mórbido constatar que o medo e o choque diante da violência sejam, talvez, os únicos sentimentos capazes de conectar indivíduos de diferentes credos hoje em dia. Embora essa sensibilidade seja válida, não deveríamos precisar do peso de uma morte brutal para reconhecer o valor de uma vida.
Segundo: por que a polarização se tornou tão intransponível? Se apenas a execução de um animal inocente consegue suspender o antagonismo, é sinal de que esse abismo cresceu demais. Existem diversas teorias, manifestos e teses sobre a polarização contemporânea. Cada uma carrega sua parcela de verdade. Minha gota de ideia nesse oceano de argumentos é simples: creio que muitos se alimentam e prosperam através da divisão, transformando o ódio ao oposto em um ecossistema lucrativo. Enquanto a discórdia gerar capital político e financeiro, somente a dor extrema servirá de trégua.
- Leia também: Protestos por cão Orelha seguem pelo país
A grande verdade é que a comoção pelo Orelha não durará para sempre. Logo, um bolsonarista perceberá que curtiu o post de um colega de esquerda pedindo justiça pelo cão, assim como um eleitor de Lula notará que compartilhou o monólogo de Nikolas Ferreira sobre a punição dos agressores. Se não conseguimos concordar sobre a economia, a educação ou o futuro das cidades, o que nos sobra é o choro compartilhado diante de uma carcaça. É um despertar doloroso: o Brasil só se abraça quando está diante de um túmulo. A barbárie que vitimou o cão é a mesma que, em doses menores e verbais, aplicamos diariamente em nossas redes sociais. Se a morte dele uniu o país, que a vida dos que ficaram aprenda a suportar a diferença sem o auxílio da dor
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