ARTIGO

Caso Itumbiara: que tipo de gente é capaz de culpar a mãe?

A revitimização de Sarah, a mãe das crianças mortas, é sórdida e só reflete o quanto faz falta uma educação orientada pelo amor e não pelo ódio às mulheres

Até outubro, 12 mulheres tiveram acesso ao auxílio por decisão judicial -  (crédito: Cristiano Gomes/CB/D.A Press.)
Até outubro, 12 mulheres tiveram acesso ao auxílio por decisão judicial - (crédito: Cristiano Gomes/CB/D.A Press.)

Sim, eu queria estar falando sobre o carnaval, sobre a alegria de ver Dom Helder Câmara ser homenageado, sobre os bonecos de Wagner Moura, Kleber Mendonça e a perna cabeluda de O agente secreto desfilando ladeiras, brincando e louvando o cinema nacional, mais uma vez representado no Oscar. Também queria falar sobre Nossa Senhora de Guadalupe e sua linda e misteriosa história, que conto hoje na Revista do Correio, lembrando que, nesta quarta-feira, é o início da quaresma, um tempo para refletirmos sobre nossa caminhada nessa existência. 

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Mas eu não consigo falar de alegria, nem mesmo de paz. Porque sinto a tristeza tamborilar no meu coração ao som do bumbo mais estridente. Esse barulho ensurdecedor vem da "voz" da internet, do absurdo julgamento imposto a uma mãe que teve os filhos assassinados por um covarde dominado pelo ego, nascido e criado numa civilização fundada no ódio às mulheres, como explica tão bem o psicanalista Contardo Calligaris, em vídeo que sempre volta à minha timeline quando um caso grotesco como esse acontece. 

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Falo sob o impacto do crime de Thales Alves Naves Machado, secretário de Governo de Itumbiara, genro do prefeito, que decidiu matar os filhos e depois tirar a própria vida para se vingar da mulher. Estamos acostumados a ver homens, supostos cidadãos de bem, cometerem atrocidades quando o seu sentimento de posse em relação a uma mulher é desafiado. Porque isso é diário e constante. Mas nunca será o suficiente para deixar de me chocar e de me ferir. Matar os filhos como instrumento de punição é uma maldade tão absurda que nem consigo nominar.

Machismo, misoginia e patriarcado são o pano de fundo da nossa sociedade. Sabemos disso. Ainda assim, para mim soa inexplicável e injustificável ver pessoas que se dizem cristãs, pessoas "de bem", "corretas", "dignas", incluindo mulheres, atacar e violar a dignidade de uma mãe que acabou de perder seus filhos. Ela precisou ser escoltada e foi impedida de acompanhar o enterro do próprio filho devido a ameaças. Pouco se sabe da vida íntima desse casal e, de fato, não interessa a ninguém. O que esse homem fez é injustificável. Culpar a mãe é indecente. 

A revitimização de Sarah, a mãe das crianças mortas, é sórdida e só reflete o quanto faz falta uma educação orientada pelo amor e não pelo ódio às mulheres. Expresso toda a minha solidariedade a essa mãe. Que ela seja amparada por Deus e Nossa Senhora.

Há vozes potentes denunciando esse absurdo, sobre esse tribunal horroroso que se tornou a internet, como a da delegada Amanda Souza, que viveu situação igual à da vítima em 2023, tendo seus dois filhos assassinados pelo ex-marido, que também se matou depois. É esse o grito que precisamos ampliar. Porque há milhões e milhões de comentários na linha oposta.

Que tipo de gente consegue justificar o comportamento de um assassino culpando a mulher? E certamente nós conhecemos essas pessoas, elas sentam ao lado no banco da missa, jantam conosco em restaurantes, convivem com nossos amigos. Não são doentes, são pessoas comuns e têm como esporte desvalorizar e culpar mulheres. Precisamos combater isso no dia a dia. 

No Correio, faremos a segunda edição do ano do CB Talks destinado ao tema. O evento gratuito "O Brasil pelas Mulheres: proteção a todo tempo" será no próximo dia 26, a partir das 8h30, no auditório do Correio Braziliense. Se não assumirmos coletivamente a proteção às mulheres como um compromisso, nada mudará.

 

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postado em 15/02/2026 06:00
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