
ANDRÉ GUSTAVO STUMPF, jornalista
O ano, afinal, começou. Na próxima segunda-feira, serão iniciados os trabalhos de 2026. Até agora, os brasileiros desfrutaram do Natal, do réveillon, das férias e do carnaval, que, segundo a crença geral, não constituem tempo hábil para trabalhar. Curioso é que, exatamente neste momento, o governo do presidente Lula tenta revogar o sistema que consagra seis dias de trabalho para um de descanso. Ou seja, é o incentivo oficial à boa vida. Vale tudo para vencer a eleição.
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Os brasileiros, sobretudo os petistas, ainda não entenderam que o país cresceu, mas não enriqueceu. A produtividade do trabalhador europeu ou norte-americano é várias vezes superior à do nacional. Do ponto de vista da matemática, não faz sentido diminuir o tempo de trabalho e manter salário. Mas os objetivos eleitorais são diferentes da natureza das coisas. O presidente, que anda distribuindo bolsas de todos os tipos e tamanhos, foi obrigado a elevar muito os impostos, para cumprir suas promessas.
Sacrificou o crescimento da economia na busca por votos. Anulou o Imposto de Renda de quem ganha até R$ 5 mil, mas, na outra ponta, elevou de quem ganha acima desse nível. O governo vai continuar a receber o mesmo montante. O que muda é quem paga. E quem paga, usualmente, não vota no Partido dos Trabalhadores.
Governos populistas são assim. O presidente Lula não inventou nada neste particular. O governador Cristovam Buarque, do Distrito Federal, instituiu, no seu período de governo, a Bolsa Escola. Ele copiou o modelo utilizado pelos franceses, na cidade de Lyon. O incentivo para as crianças irem para a escola era o lanche, que, naquela época, constituía algo raro em toda França recém-saída da destruição da Segunda Guerra Mundial. O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, aproveitou a ideia e a implantou em todo o território nacional. Cristovam Buarque não conseguiu se reeleger para o governo do DF. Chegou, porém, ao Senado. FHC governou por dois mandatos presidenciais. O esquema populista funciona.
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O problema é que as contas nacionais sofrem muito. O Brasil já teve uma dívida externa em dólares que mandava no país. Vários ministros da Fazenda comandaram recessões pavorosas para pagar ao menos os juros dos empréstimos concedidos pelos banqueiros internacionais. Mas a Petrobras descobriu petróleo, e o país começou a produzir o ouro negro. A conta petróleo, que era um pesadelo na contabilidade dos economistas, sumiu. E o bom trabalho realizado por um grupo de técnicos fez a dívida externa desaparecer. Justiça se faça, foi Lula que acabou com o que restava da dívida externa, que era toda em dólares. Pagou a dívida.
Hoje, o problema é parecido, mas a dívida é em reais, contraída junto aos bancos brasileiros. É um grande negócio para os banqueiros nacionais. Eles emprestam para o governo segundo a taxa de juros arbitrada pelo Banco Central. Hoje, está em 15% ao ano. Esse negócio garante rentabilidade acima da inflação e oferece boa taxa de lucro, sem qualquer trabalho ou despesa. Uma delícia para o sistema financeiro. O endividamento brasileiro já anda pela casa dos 75% do Produto Interno Bruto. Outros países possuem índices maiores. Bom exemplo é o governo dos Estados Unidos, cuja dívida está além dos 120%. A obsessão de Trump com taxas de importação é explicada pela enorme dívida do governo norte-americano que é financiada pelos títulos da dívida pública deles. Acontece que a China, além de vários países da Ásia, estão se desfazendo dos papéis. É guerra sob outro ponto de vista.
Quando Tancredo Neves percebeu que ele iria ganhar a eleição no Colégio Eleitoral, em Brasília, chamou seu parente e amigo Francisco Dornelles e deu a ele a missão de conversar com banqueiros internacionais. A mensagem era simples. O governo brasileiro iria manter o pagamento dos juros da dívida externa. Já no governo Sarney, o então ministro Dilson Funaro, além de fazer o congelamento de preços, chegou ao ápice da negação. Decretou a moratória na dívida externa brasileira. A partir daquele momento, o Brasil deixou de pagar suas obrigações com os banqueiros estrangeiros. No dia seguinte, as agências do Banco do Brasil em todo o mundo ficaram sem recursos. O banco foi excluído da negociação intrabancos. Foi muito difícil retomar a antiga confiança.
Este ano de 2026 vai ser curto. Termina em junho, quando começa a Copa do Mundo de futebol. Se o time brasileiro avançar para as finais, o país ficará paralisado com os olhos postos na televisão. O torneio termina em julho. E, logo em seguida, começa a campanha eleitoral. Candidatos só querem lançar bons projetos para os ouvidos do eleitor. Em política ruim é perder. Vale tudo para vencer uma eleição. Dilma Rousseff tentou seguir esse protocolo: prometeu o país de sonhos, mas iniciou seu segundo mandato no comando de uma recessão. Parece que não deu certo.

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