
ROSE RAINHA, diretora-superintendente do Sebrae no Distrito Federal
No Brasil, o empreendedorismo feminino ainda é frequentemente tratado como pauta de inclusão social. Embora essa dimensão seja importante, ela não esgota o tema. Quando mulheres empreendem, não se trata apenas de autonomia individual, mas de dinamização econômica, geração de renda, inovação e ampliação da base produtiva do país.
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Incentivar o empreendedorismo feminino significa ativar capacidades produtivas que hoje operam abaixo do seu potencial. Negócios liderados por mulheres geram empregos, movimentam cadeias locais, diversificam mercados e contribuem para a resiliência econômica, especialmente em cenários de instabilidade. Reduzir essa agenda a uma política compensatória é ignorar seu impacto direto sobre produtividade, competitividade e desenvolvimento sustentável.
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O Brasil avançou no reconhecimento da importância dos pequenos negócios, mas ainda persistem barreiras estruturais que limitam o pleno crescimento das mulheres empreendedoras. O acesso desigual a crédito restringe investimentos e escala. A menor inserção em cadeias produtivas estruturadas e mercados internacionais reduz valor agregado. A sobrecarga de responsabilidades familiares compromete tempo e expansão. Soma-se a isso um ambiente institucional que nem sempre considera as especificidades dessas trajetórias.
Esses fatores não são periféricos. Eles impactam a produtividade dos negócios e a competitividade sistêmica da economia. Se quisermos discutir crescimento com seriedade, precisamos tratar o empreendedorismo feminino como política econômica, com planejamento, coordenação e metas claras.
Foi com essa perspectiva que, em 2023, o Sebrae no Distrito Federal realizou uma ampla escuta com mulheres empreendedoras. O diagnóstico resultou em 51 medidas organizadas em eixos, como crédito, inovação, segurança, educação e ambiente de negócios. O conjunto foi institucionalizado por decreto, transformando-se em política pública com governança participativa.
A experiência mostrou que políticas desenhadas a partir da escuta estruturada deixam de ser meramente compensatórias e passam a atuar como indutoras de mercado. Quando se cria ambiente favorável, o impacto não é restrito a um grupo específico — ele se espalha pela economia local.
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Em 2026, essa agenda ganha novo impulso com a realização do Movimente, nos dias 3 e 4 de março, no Hotel Royal Tulip Brasília Alvorada. A iniciativa reúne representantes de organismos internacionais, como ONU Mulheres e Brics, além de lideranças públicas e empresariais de diferentes estados, para discutir inserção internacional, compras públicas e fortalecimento institucional voltado às mulheres empreendedoras. Mais do que um evento, trata-se de um espaço de articulação para consolidar uma estratégia nacional.
Internacionalizar negócios liderados por mulheres, ampliar acesso a mercados estruturados e utilizar compras públicas como instrumento de inclusão produtiva são decisões econômicas. Quando empresárias acessam mercados globais e integram cadeias de fornecimento, ampliamos a base produtiva do país e fortalecemos sua inserção internacional.
O debate sobre equidade de gênero não pode permanecer restrito ao campo simbólico. Ele precisa integrar as estratégias de crescimento. Estudo do McKinsey Global Institute estima que o avanço da igualdade de gênero poderia adicionar até US$ 12 trilhões ao PIB mundial. Países que ampliam a participação econômica das mulheres crescem mais e distribuem melhor os frutos desse crescimento.
O Brasil tem talento, criatividade e capacidade empreendedora para liderar essa agenda. O que falta é decisão estratégica. Tratar o empreendedorismo feminino como vetor econômico é reconhecer que competitividade e inclusão não são agendas opostas. Elas são complementares.
A questão não é se devemos investir nessa pauta, mas quanto estamos deixando de crescer ao não fazer com prioridade. Se o país pretende avançar em produtividade, geração de renda e inserção internacional, precisa colocar as mulheres no centro da estratégia econômica. Não como concessão, mas como decisão de desenvolvimento.

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