Mozart Neves Ramos — titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira do Instituto de Estudos Avançados da USP de Ribeirão Preto e professor emérito da UFPE; Gabriela Camarotti — diretora pedagógica do Escola Vila Aprendiz – Recife (PE)
A escola, historicamente, foi associada a notas, provas e conteúdos. No entanto, diante do cenário emocional vivido por crianças e adolescentes na contemporaneidade, se torna urgente reconhecer que sua função precisa ir além da mensuração de resultados acadêmicos. O aumento expressivo de quadros de ansiedade, depressão e dificuldades de autorregulação não aparece apenas em pesquisas científicas: ele se revela cotidianamente nas salas de aula, nas reuniões pedagógicas, nas consultas médicas e nas conversas familiares.
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Trata-se de um fenômeno transversal, que passa por diferentes classes sociais e modelos de escola, indicando não fragilidades individuais isoladas, mas limites estruturais de um modelo educacional excessivamente centrado no desempenho. Não se trata de transferir toda a responsabilidade para a instituição escolar. Ainda assim, é impossível ignorar o impacto da cultura da performance que se consolidou ao longo dos anos. O excesso de conteúdos, a lógica de avaliações constantes, as comparações explícitas ou veladas e a antecipação de etapas do desenvolvimento criam um ambiente de pressão permanente.
A neurociência tem demonstrado de forma consistente que o estresse crônico compromete funções executivas essenciais, como planejamento, flexibilidade cognitiva e controle emocional, justamente aquelas em processo de consolidação durante a infância e a adolescência. Em nome da produtividade e da aceleração, sacrificam-se processos fundamentais do desenvolvimento humano.
Nos anos finais do ensino fundamental, essa tensão se intensifica. A fragmentação das disciplinas, as longas aulas expositivas e a escassez de espaços de escuta transformam o estudante em receptor passivo de informações, ao mesmo tempo em que dele se exige autonomia, responsabilidade e capacidade crítica. Cobra-se protagonismo, mas oferecem-se poucas oportunidades reais para o erro, a experimentação e a construção de sentido. O resultado é um paradoxo pedagógico: jovens exaustos, desmotivados e, muitas vezes, profundamente desconectados do próprio aprender.
Esse movimento começa cedo. Ainda nos anos iniciais do ensino fundamental, práticas como o excesso de provas, rankings e discursos voltados precocemente para uma futura aprovação universitária deslocam a infância de seu lugar legítimo. Embora documentos oficiais da educação brasileira reforcem o valor do brincar, da investigação e da convivência, persistem modelos escolares que tratam crianças como pequenos adultos em treinamento para o desempenho. O custo dessa antecipação é alto: a curiosidade cede lugar à ansiedade, e o prazer de aprender é substituído pelo medo constante de errar.
Diante desse cenário, a parceria entre escola e família torna-se decisiva. Muitas vezes, expectativas parentais movidas por insegurança em relação ao futuro reforçam a lógica da cobrança contínua. Rotinas excessivamente preenchidas, múltiplas atividades extracurriculares e pouco tempo de convivência fragilizam o que especialistas denominam segurança relacional, base para o desenvolvimento da autoestima, do pensamento crítico e da capacidade de tomar decisões. Quando escola e família não caminham em diálogo, o adolescente permanece sozinho diante de demandas que não consegue sustentar emocionalmente.
Vivemos, ainda, um paradoxo contemporâneo: nunca houve tanta informação disponível e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil sustentar a atenção, discernir relevâncias e manter processos reflexivos profundos. A hiperconectividade, somada à pressão escolar, cria um cenário emocional complexo que exige da escola um novo papel. Não o de proteger do mundo, mas o de ensinar a interpretá-lo, regulá-lo e habitá-lo de forma ética e consciente. Rever a cultura do desempenho não significa reduzir expectativas, mas qualificá-las.
Aprender envolve conflito, tentativa, persistência e vínculo, e não apenas resultados mensuráveis. A educação socioemocional não deve ser tratada como complemento, mas como dimensão estruturante da aprendizagem. O cérebro aprende melhor quando se sente seguro e quando o conhecimento faz sentido.
Ao final, a pergunta que se impõe é simples e profunda: queremos formar apenas aprovados ou cidadãos capazes de pensar, sentir, agir e conviver em uma sociedade complexa? A saúde emocional das novas gerações não é um detalhe secundário. Ela é o alicerce de qualquer projeto educativo verdadeiramente comprometido com o futuro.
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