ARTIGO

Não basta fechar a boca e malhar

Quando o assunto é obesidade, adoramos repetir a fórmula da boa forma física: "Basta malhar e fechar a boca".

O discurso da meritocracia é burro e só faria sentido em um mundo sem desigualdade, o que é impossível. O engraçado é que, enquanto muita gente empunha a bandeira do "fazer para acontecer", poucos se lembram de que a palavra foi cunhada como sátira pelo sociólogo britânico Michael Young, em um ensaio de 1958. No texto, ele criticava, adivinhe, uma civilização que preferia o QI alto e o "esforço" à justiça social.

Se esse conceito não funciona para comparar a trajetória de pessoas com oportunidades socioeconômicas disparatadas, tampouco deveria ser aplicado em relação a doenças. Ninguém, é claro, defende que basta força de vontade e determinação para uma pessoa sem pernas chegar em primeiro lugar na corrida de São Silvestre. Porém, quando o assunto é obesidade, adoramos repetir a fórmula da boa forma física: "Basta malhar e fechar a boca". 

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Isso pode ser verdade para a maioria de nós, que estamos em eterna luta contra a balança, mas não abrimos mão do docinho diário e adiamos a atividade física para uma suposta segunda-feira que não chega nunca. Porém, exigir que a receitinha funcione para pessoas com obesidade, uma doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), é tão cruel quando querer que o filho da diarista compita no mercado de trabalho com o nosso filho bem nutrido e diplomado em inglês-espanhol-mandarim. 

Há décadas, cientistas estudam os mecanismos da obesidade e, com o aprimoramento de técnicas de rastreamento cerebral, já se sabe que o órgão de pessoas com a doença tem estrutura e funcionamento diferentes, especialmente nas redes neuronais associadas à impulsividade e à saciedade. Sejam essas alterações causa ou consequência, não se pode ignorar que "malhar e fechar a boca" aqui não se aplicam.

Evidentemente, há pessoas com obesidade que conseguem emagrecer sem medicamentos ou cirurgia. Assim como há aquelas que, submetidas a uma infância de fome, trabalho e pouca instrução, ingressam cursos concorridos nas melhores universidades. São, claro, exceções. 

Considerados revolucionários, os análogos de GLP1 funcionam induzindo o organismo da pessoa com obesidade a funcionar como o dos magros. Comer menos e colher os benefícios da atividade física, então, torna-se uma missão possível. 

Esses medicamentos, porém, não devem ser encarados como canetas mágicas, como se bastasse uma picadinha para a gente voltar ao manequim 38 depois dos exageros natalinos. Evidentemente, qualquer substância externa não age sem custos — financeiros e orgânicos. Quanto mais gente usar os análogos de GLP1, com ou sem necessidade real, mais se descobrirão efeitos colaterais em potencial. 


 

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