ARTIGO

Inclusão racial na campanha eleitoral

O país será tomado por um ciclo intenso de disputa. Entre os temas que vale abordar nessa campanha, estão a saúde mental na periferia — uma urgência nacional —, o fim da educação separatista e o desenvolvimento sustentável

Ronald Siqueira Barbosa presidente do Instituto Nacional Afro-Brasileiro (Inabra), professor e mestre em engenharia de telecomunicações

 

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular

O ponto de partida desta reflexão foi uma propaganda partidária recente que indagava sobre o perfil de presidente desejado pelo eleitor. Uma provocação da esquerda que mobilizou reações da direita. Pouco tempo depois, ocorreu no Rio de Janeiro a invasão do Complexo do Alemão por efetivos policiais — uma ação que surpreendeu o país. Infelizmente, as análises se concentraram mais na aprovação popular do ocorrido do que nos prejuízos causados ao comércio, às escolas, às famílias e à própria cidade.

O resultado foi o fortalecimento de uma onda conservadora — e, lamentavelmente, o luto pela perda de policiais, trabalhadores que também tinham famílias à espera e foram vítimas da tragédia e da imprevisibilidade. Neste carnaval, a Acadêmicos de Niterói, na verdade e vergonhosamente, representa a busca do protagonismo da esquerda na campanha eleitoral.

Nos próximos meses, o país será tomado por um ciclo intenso de disputa: eleições para presidente, governadores, senadores e deputados federais e estaduais com muito dinheiro em circulação. No entanto, um segmento segue à margem desse processo — justamente o que representa cerca de 60% da população: os pretos e pardos.

Apesar de terem direito ao fundo partidário, candidatos negros continuam sendo enganados, subfinanciados e, em muitos casos, terminam as campanhas endividados e com a vida pessoal comprometida. Um retrato de exclusão que persiste mesmo sob o discurso da igualdade.

Entre os temas que vale abordar nessa campanha, estão a saúde mental na periferia — uma urgência nacional. Trata-se de um problema que atravessa toda a sociedade, mas que pesa de forma mais severa sobre a população negra, que sofre mais fortemente a ausência de políticas públicas, o racismo e a fragilidade das estruturas familiares, fatores que ampliam o sofrimento psicológico.

A desigualdade é visível em diversos campos. No sistema de adoção, por exemplo, crianças negras raramente são escolhidas — e, quando o são, dificilmente serão meninas. Ainda que sejamos maioria, seguimos tratados como casta invisível, submetidos às piores condições de moradia, transporte e renda, sem autonomia nem visibilidade social.

Essas distorções deveriam bastar para inspirar compromisso das autoridades. Mas, em vez disso, o debate público tende a se reduzir à polarização vazia e às pautas superficiais — como as promessas ambientais que ressurgem a cada conferência internacional, como a COP30, e que logo desaparecem do noticiário.

É inadmissível que um país com a força produtiva e exportadora do Brasil mantenha o Índice de Desenvolvimento Humano  (IDH) tão baixo. O que temos é um desenvolvimento desequilibrado, sem poupança nem consumo e muito menos inclusão.

A consequência é o abandono — intelectual, físico e político — de milhões de brasileiros que podem contribuir para o desenvolvimento nacional e alcançar o bem-estar que a ONU define como direito de todos.

Os lares brasileiros precisam de estrutura. Famílias estáveis, comunidades produtivas e educação de qualidade são a base de qualquer projeto de nação. A exclusão não se vence com slogans, mas com políticas concretas e educação transformadora.

E a educação, por sua vez, não pode ser separatista. Boas escolas não podem continuar sendo privilégio de poucos. É preciso garantir ensino público de qualidade e acesso real ao conhecimento — como fazem países latino-americanos, a exemplo da Bolívia, que investem em modelos educacionais inclusivos e de baixo custo.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define o bem-estar como físico, mental e social. Mas ele também pode ser visto sob o prisma do desenvolvimento sustentável: primeiro, vendo o indivíduo em sua singularidade; depois, buscando a melhoria de vida coletiva e o respeito ao meio ambiente. É preciso atribuir valor econômico e humano às ações — só assim, o desenvolvimento será, de fato, inclusivo.

É verdade que o conforto material, traduzido em tecnologia e consumo, ajuda a medir avanços. Mas ele não apaga os traumas de quem cresceu em lares desestruturados, marcados pela violência, pelo alcoolismo ou pela ausência do Estado. Essas feridas permanecem, e delas nascem transtornos que se somam aos de origem genética, como o Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Por isso, é fundamental observar como cada estado brasileiro implementa suas políticas de bem-estar. As desigualdades regionais — sejam urbanas, agrárias ou políticas — continuam revelando formas de exclusão travestidas de programas sociais.

 É preciso uma agenda permanente de inclusão e debate ao longo do ano, para que os governos demonstrem, na prática, o quanto estão dispostos a integrar a maioria racial ao projeto de desenvolvimento do país.

 

Mais Lidas