
À medida que descia pelas escadarias úmidas do túnel Shtula, na fronteira norte de Israel com o Líbano, a respiração tornava-se mais pesada. No caminho até a metade do túnel — o equivalente a 14 andares abaixo da terra —, um oficial do Exército judeu detalhava o risco histórico representado pelo Hezbollah e como toda a região estava conflagrada. Ao sairmos de Shtula, ofegantes, vimos um soldado do “Partido de Alá” nos vigiando ao longe, camuflado no meio dos arbustos, usando binóculos. Sete meses depois, em outubro de 2023, o Oriente Médio iniciaria uma espiral descendente rumo ao seu próprio inferno.
Ainda que esperada, a campanha militar dos Estados Unidos contra o Irã, com envolvimento direto de Israel, levou ao assassinato do aiatolá Ali Khamenei, uma consequência considerada extrema por qualquer especialista. O regime teocrático islâmico se vê diante de uma ameaça existencial. Por esse motivo, acredita que nada tem a perder, o que acrescenta dramaticidade a uma guerra imprevisível não apenas para o próprio Irã, mas também para o Oriente Médio e o mundo. No domingo, uma multidão de xiitas tentou invadir o Consulado dos Estados Unidos, em Karachi, no Paquistão. Forças de segurança reagiram e mataram dez civis.
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vangloriou-se de que "tudo foi destruído no Irã". Se para muitas pessoas o líder republicano é o salvador de uma nação que oprime mulheres e impõe a sharia (lei islâmica) aos seus cidadãos, para outros, trata-se de um líder que coloca o ego à frente de qualquer senso de razoabilidade. A pergunta é: depois que as bombas pararem de cair sobre o Irã, o que será do futuro de uma nação com mais de 6 mil anos de história? As intervenções americanas no Iraque e no Afeganistão mostraram-se catastróficas. Ambos os países tornaram-se celeiros de terrorismo. No Afeganistão, os mesmos talibãs que tinham sido derrubados pelos EUA retornaram e forçaram os americanos a partirem em debandada de Cabul.
- Leia também: Impactos da guerra vão além da economia
A ameaça da Guarda Revolucionária de atacar cada centro econômico do Oriente Médio eleva o confronto a outro patamar. Se isso ocorrer, a guerra deixará de ser contra interesses americanos na região e se tornará um conflito contra a economia global. Um especialista chegou a me dizer que acredita em um pedido de cessar-fogo, por parte dos Estados Unidos, nas próximas semanas. A guerra de Trump e de Benjamin Netanyahu pode causar mais instabilidade a longo prazo e fomentar o fanatismo, além do ódio. O próprio Hezbollah arrastou o Líbano para o conflito. O túnel pode ser bem mais profundo do que Trump imagina.

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