Opinião

Que ninguém nos dê flores

Que ninguém nos dê flores no dia 8. Deem, no lugar disso, educação a seus filhos homens. Ensine-os que o corpo da mulher é tão inviolável quanto o dele

. -  (crédito: pacifico)
. - (crédito: pacifico)

Há duas semanas, ocupei este espaço com a recordação de uma viagem a trabalho a Las Vegas, nos Estados Unidos, onde mulheres circulam enjauladas pela cidade em carretas de prostituição durante o dia, enquanto outras estão anunciadas em propagandas exibidas nos elevadores dos hotéis, sem restrição de horário. Enfatizei que não se trata de conservadorismo, mas da exposição excessiva da figura feminina como objeto à venda.

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Lembrei também dos programas de televisão dos anos 1980, 1990 e 2000, quando o figurino das atrizes nos humorísticos era sempre biquínis, enquanto os homens apareciam rigorosamente vestidos; das atrações das tardes de domingo, com modelos disputando sabonete na banheira, para deleite dos apresentadores; da encarnação de fantasias sexuais masculinas, como sadomasoquista ou odalisca, no horário da tarde. E lamentei que algumas pessoas ainda dizem sentir saudades da programação da época, que não tinha "mimimi".

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Recebi muitos comentários de leitores. Uns disseram que o carnaval também é assim, cheio de "mulher pelada" em qualquer horário do dia. Mas, não, isso não tem nada a ver com nudez. Uma coisa é a mulher ou o homem escolher,  por vontade própria, o modelito que quer usar para pular o carnaval num bloco. Outra é a imagem feminina ser associada o tempo inteiro a um objeto de desejo, seja nos programas vespertinos, nos humorísticos, nas músicas, em áreas públicas de hotéis. De forma escancarada ou subliminar, meninos e meninas são bombardeados constantemente com essa mensagem: o corpo feminino existe para servir ao desejo masculino.

Volto a esse tema também por aqueles que comentaram, em tom jocoso: "Se Las Vegas é assim, vou para lá". Mas, principalmente, volto a esse tema pela adolescente estuprada coletivamente por quatro homens e um jovem de 17 anos; pela freira de 82 anos, violentada e morta no Paraná; pelas mulheres atropeladas e arrastadas nas ruas propositalmente; pela moça que pediu ajuda no metrô de São Paulo e foi recriminada pela roupa que usava; pelas vítimas de feminicídio de todo santo dia. Por todas aquelas espancadas, humilhadas, constrangidas, assediadas, perseguidas.

Que ninguém nos dê flores no dia 8. Deem, no lugar disso, educação a seus filhos homens. Ensine-os que o corpo da mulher é tão inviolável quanto o dele; que não é não; que mulheres não estão no mundo para servi-los, tampouco para saciá-los. Corrijam caso façam piadinhas sobre meninas, não deixem que se refiram a elas com desrespeito; lembre-os, o tempo inteiro, de que maltratar uma mulher não é prova de masculinidade, mas de covardia. Deixem as flores no canteiro, não é disso que precisamos.

 

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postado em 05/03/2026 06:02
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