Visão do Correio

Mulheres oprimidas por uma rotina de agressões

Chegamos ao século 21 e as mudanças são insuficientes para que haja uma verdadeira equidade de gênero no país.

Há, de fato, o que se comemorar no 8 de Março, Dia Internacional da Mulher? Não se trata de pessimismo, mas de desafio aos Poderes da República e à sociedade, uma vez que as agressões das mais diversas formas fazem parte do cotidiano feminino ao longo de todos os anos. Chegamos ao século 21 e as mudanças são insuficientes para que haja uma verdadeira equidade de gênero no país. 

Em 2025, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio no país — alta de 4,7% em relação a 2024 e um recorde na comparação com anos anteriores. Trata-se de crime considerado o ápice de engrenagem de violência que oprime adultas e meninas cotidianamente, com configuração de epidemia — a média é de quatro casos por dia. Basta um "não" ao que homens desejam para que mulheres sejam punidas com a sentença de morte. Prevalece o entendimento de que elas devem ser subordinadas aos caprichos deles, sobretudo de maridos e namorados. 

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Quem sobrevive carrega marcas profundas da violência de gênero. Em 2024, também segundo o FBSP, ocorreram 87.545 estupros no país. Das vítimas, 76,8% eram vulneráveis, 87,7% do sexo feminino, e  55,6% negras. A  maioria dos casos (65,7%) ocorreu em casa e os agressores eram familiares (45,5%). Essa abjeta violência às mulheres também é praticada em bandos, como o estrupro coletivo de uma jovem de 17 anos em área nobre do Rio de Janeiro que chegou ao noticiário nesta semana. A adolescente foi vítima do crime bárbaro no fim de janeiro, após ser atraída por um ex-namorado para um apartamento em Copacabana onde estavam outros quatro homens. Todos a violentaram.

Acusados estão detidos e devem ser punidos como prevê a legislação. Mas não basta a privação de liberdade para esses jovens ou para quaisquer outros agressores. É preciso agir e modificar uma estrutura que funciona como salvo conduto para que homens — de qualquer idade e realidade social e econômica  — enxerguem meninas e mulheres como objetos de uso comum. É consenso entre especialistas que essa mudança de paradigma passa pela educação de gênero. 

As leis de proteção às mulheres foram aprimoradas e tornaram-se mais rigorosas no país, mas os avanços seguem insuficientes para impor aos homens que as respeitem em qualquer ambiente. Exemplos vêm, inclusive, daqueles que ocupam instâncias de decisão e poder, como os casos recentes de magistrados afastados por denúncias de crime sexual. Parlamentares também dão mau exemplo, como os recorrentes casos de deputadas, senadoras e ministras que são alvos de ataques misóginos  em plenário e comissões.

Grandes mudanças na sociedade resultaram das lutas dos movimentos feministas. Desde a Constituição Cidadã, as mulheres são reconhecidas e têm direitos equiparados. Mas só isso não basta. É essencial que haja igualdade de gênero em todos setores, públicos e privados, como reconhecimento da importância das mulheres na sociedade. A começar pelos Três Poderes da República.

 

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