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O Agente Secreto é um romance filmado sobre o Brasil

Daqui a um século, se alguém quiser entender o que foi o nosso país durante a ditadura e de como aquele período se refletiu em nossa cultura da violência nos anos seguintes, basta ver o filme, ou os filmes, de Kleber Mendonça Filho

BETO SEABRA, jornalista e escritor

Mesmo mais de uma década depois, eu me lembro da sensação que senti quando saí do Cine Cultura após ver o filme O som ao redor (2012), de Kleber Mendonça Filho. Era o melhor filme que eu via em muitos anos. Estava tudo ali, apesar da narrativa lenta, das cenas vagas e das histórias que pareciam não se conectar.

Quatro anos depois fui assistir Aquarius (2016), ainda com a lembrança de O som ao redor. Não me decepcionei. O filme parecia continuar uma sequência narrativa sobre o Recife, cidade onde passei muitas das minhas férias em casa de familiares. E a presença marcante de Sônia Braga no papel principal trouxe uma dimensão cosmopolita à história de conflito urbano no bairro de Boa Viagem.

Bacurau (2019) levou o cinema de Mendonça Filho para o grande público. O misto de realismo sertanejo com ficção científica construiu uma fábula que se identificou muito com o Brasil daquele período, em especial a partir da pandemia que surge em 2020. 

O que veio em seguida foi um documentário que toca, em especial, os amantes do cinema. Retratos Fantasmas (2023), para mim, é um filme-ensaio inspirado nas memórias do diretor e que faz uma bela homenagem à sétima arte, como fez o clássico italiano Cinema Paradiso. 

Depois de tudo isso, e como se não bastasse, surge o monumental O Agente Secreto (2025), que estreou com destaque em Cannes e ganhou prêmios no Globo de Ouro 2026. Difícil escrever sobre o mais novo filme de Kleber Mendonça sem fazer essa retrospectiva de sua obra. O diretor pernambucano parece ter um projeto bastante claro para o seu cinema.  

O Agente Secreto é um retrato da grande tragédia brasileira. Ainda que faça rir em alguns momentos, como uma comédia, ou chorar, como num drama, ele é essencialmente uma história trágica, na acepção criada pelos gregos. 

Desde a cena de abertura, no posto de gasolina, que poderia ser destacada do filme e virar um curta-metragem, tamanha é a sua força narrativa, até o desfecho surpreendente, O Agente Secreto coleciona pequenas e grandes tragédias brasileiras tendo como cenário o período da ditadura militar, quando a maldade não estava "apenas" nas já complexas e conflituosas relações humanas, mas vinha de cima, como projeto de desmonte de uma nação.

Vi o filme no cinema e revi esta semana no streaming. E é possível que torne a vê-lo em outras oportunidades, para tentar entender todas as nuances que o filme de Kleber Mendonça Filho traz em duas horas e 40 minutos que passam depressa demais. 

O filme não é só a atuação magistral de Wagner Moura. Se Retratos Fantasmas foi um ensaio, o novo filme do diretor pernambucano é um romance filmado sobre o Brasil. E, como em todo grande romance, cabem personagens maiores e menores, histórias edificantes e momentos de baixaria, amor, paixão, ódio e tragédia. Além de uma trilha sonora eletrizante.

Daqui a um século, se alguém quiser entender o que foi o nosso país durante a ditadura e de como aquele período se refletiu em nossa cultura da violência nos anos seguintes, basta ver o filme, ou os filmes, de Kleber Mendonça Filho. O cinema brasileiro voltou a ser um espaço de debate sobre a nossa sociedade, como foi no passado, sem deixar de lado sua dimensão estética.

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