O Brasil disputa, neste domingo, mais uma vez, uma estatueta na maior premiação do cinema mundial. Com quatro indicações para o Oscar, o filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, concorre nas categorias de Melhor filme, Melhor filme internacional, Melhor ator e Melhor elenco. A última vez que uma produção brasileira obteve tantas chances de ser laureada foi em 2004, com Cidade de Deus, obra-prima de Fernando Meirelles.
Independentemente do resultado, O Agente Secreto pode ser considerado um filme vencedor. Em primeiro lugar, pelos méritos por chegar ao Olimpo da indústria cinematográfica, após uma temporada de sucesso em festivais relevantes por todo o mundo. Desde o lançamento no circuito internacional, em maio do ano passado, acumulou mais de 70 premiações. Em Cannes, Kleber Mendonça e Wagner Moura ganharam em melhor direção e melhor ator. Em janeiro, O Agente Secreto foi o primeiro filme brasileiro a vencer duas categorias — Melhor filme em língua não inglesa e Melhor ator em filme de drama — na mesma edição do Globo de Ouro. E houve muitos outras provas de reconhecimento.
Tão impressionante quanto a lista de premiações é observar que O Agente Secreto conquistou plateias do mundo inteiro com uma história genuinamente brasileira. A aventura do professor Marcelo (personagem de Moura), perseguido por inescrupulosos de plantão na ditadura militar dos anos 1970, resgata o ambiente opressor daquele período sombrio da nossa história. Ao mesmo tempo, a ambientação no Recife, cidade desde sempre marcada pela diversidade cultural e pela tradição do carnaval, reproduz a essência do Brasil e seus contrastes: quente, caótico, libertário e autoritário, solidário e violento, lutador e esperançoso.
Esse caldeirão de imagens, sons, gente e emoção pode explicar por que O Agente Secreto transcende a realidade nacional e consegue cativar o mundo. O filme de Kleber Mendonça, assim como os clássicos do cinema e da literatura, retrata, acima de tudo, questões ligadas à natureza humana: medo, poder, vingança, amor, família, esperança. Esse é o vocabulário utilizado por Wagner Moura e pelo excepcional elenco. Aqueles que perdem tempo ao desaprovar o suposto regionalismo do filme estão míopes para a mensagem mais profunda do finalista do Oscar.
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Com carreira sólida e projeção internacional crescente, Wagner Moura ganhará uma notoriedade adicional na festa em Los Angeles. Será um dos apresentadores da cerimônia, o que prova, mais uma vez, a força dos artistas nacionais. Apesar das diferenças linguísticas, o talento brasileiro é reconhecido nos palcos de Hollywood.
E a torcida não fica apenas para O Agente Secreto. Outro brasileiro, Adolpho Veloso, concorre ao prêmio de melhor fotografia pelo elogiado trabalho em Sonhos de Trem. As imagens deslumbrantes captadas pela lente de Veloso já renderam outros troféus importantes na temporada. Assim como O Agente Secreto, a produção internacional da Netflix concorre ao prêmio de melhor filme.
Na frente ou por trás das câmeras, brasileiros têm se destacado cada vez mais na indústria cinematográfica. Histórias envolventes, interpretações marcantes, produções de alta qualidade contribuem para o cinema nacional se tornar um canal importante de reflexão e cultura. É o Brasil para ser visto e admirado.
