Lilian Rocha — analista clínica, escritora, poeta, musicista e membro da Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra (OAB- RS)
Os últimos dados de pesquisas divulgadas no mês de março são estarrecedores em relação às mulheres negras (pretas e pardas). Por exemplo, o estudo Retratos dos Feminicídios no Brasil, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que a análise de 5.729 casos de feminicídios registrados pelas polícias entre 2021 e 2024 indica que 62,6% das vítimas de feminicídio são mulheres negras. No contraponto de 36,8 % de mulheres brancas e, ainda, mulheres indígenas e amarelas representam, em cada grupo, 0,3% dos casos.
Qual o motivo de tão elevado percentual? Por que mulheres negras são mais vítimas dessa violência? O feminicídio não pode ser visto como uma violência de gênero isolada de outras estruturas sociais. O dado indica que nem todas as mulheres são atingidas da mesma forma, sendo a interseccionalidade de raça e gênero um fator determinante. É necessário levar em conta os quase 138 anos de desigualdades de gênero e raciais. O que essas mulheres representam na sociedade atual?
- Leia também: A violência que afeta diariamente as mulheres pretas
Mulheres negras continuam tendo as suas vidas interrompidas, suas famílias destruídas — sendo elas, em grande maioria, as chefes de família —, vivenciando medo diário nas ruas, no trabalho, no transporte e, muitas vezes, dentro de suas casas. Elas enfrentam as maiores barreiras para romper o ciclo da violência devido à dependência financeira e menos acesso à proteção. Será que essas mulheres não mereciam o direito de estarem vivas? Ou isso é um privilégio, uma concessão para poucas? Os números indicam uma real necessidade de políticas públicas focadas em segurança, autonomia financeira e proteção.
Nesse mesmo segmento, o Instituto Esfera, em Brasília, divulgou pesquisas que indicam a falta de políticas públicas voltadas para a fase da menopausa e elas revelam que a grande maioria de mulheres afetadas é negra, pois enfrenta mais dificuldades de acesso a tratamento, assim como à informação. Os estudos mostram que 87,9% das brasileiras nessa fase da vida apresentam sintomas, mas que, infelizmente, apenas 22,4% procuram tratamento. Os estudos comprovam que fatores biológicos e sociais se cruzam, o que faz com que as mulheres negras acabem enfrentando um maior impacto na saúde e na vida profissional.
A criação do Programa Nacional da Saúde da População Negra foi um grande marco, mas ainda existem alguns vácuos específicos e determinantes na saúde da mulher negra. A desigualdade racial é um fator determinante no bem-estar dessas mulheres.
Estudo recente revela que, nas periferias brasileiras, a velhice mostra um rosto específico: é feminino, negro e trabalhador. No 4º relatório da série "Brasil Prateado", verificou-se que as pessoas com mais de 50 anos das classes C e D são, na sua maioria, mulheres: 54,6% desse público,sendo que 59% estão na classe D e 70% são negras na autodeclaração. Na velhice, muitas dessas mulheres continuam trabalhando para sustentar a família, os filhos, os sobrinhos, os netos. Vivenciam situações precárias de trabalho, moradia, acesso à saúde e transporte. Nos últimos anos, a expectativa de vida nas periferias aumentou, o tempo de vida saudável para desfrutar diminuiu, a aposentadoria ficou mais longe, o trabalho se prolonga.
Ser uma mulher negra de patamar socioeconômico mais elevado não nos exime de sermos vítimas da violência. Em março, numa operação policial em Cascadura, na Zona Norte do Rio de Janeiro, a médica Andrea Marins Dias, de 61 anos, foi alvejada em seu automóvel por tiros de fuzil quando retornava da casa de seus pais idosos. Andrea era uma ginecologista, oncologista e cirurgiã geral renomada, com mais de 28 anos de atuação. Foi alvejada, seu veículo foi confundido com o de criminosos. É triste, desanimador.
Até quando não teremos quase nada a celebrar no mês de março ou no ano inteiro? Somos 28,5% da população brasileira. Mas ainda ganhamos os menores salários, mesmo nas idênticas funções executadas por homens ou mulheres brancas.
Passados quase 138 anos de uma falsa abolição, nossos corpos continuam violentados, sexualizados, estereotipados e objetificados. Somos o maior grupo demográfico do país, porém enfrentamos os maiores índices de desigualdade social. É evidente a real necessidade de políticas públicas efetivas de longa duração para as mulheres negras, só assim haverá equiparação no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em relação à população branca.
Saiba Mais
