MÚSICA

Planeta água

Neste ano de 2026, em que Guilherme Arantes completa 50 anos de carreira, fala-se nele, ou comenta-se sua obra, muito menos do que se deveria

Crédito: Vania Toledo/Divulgação. Guilherme Arantes, cantor -  (crédito: Vania Toledo/Divulgação)
Crédito: Vania Toledo/Divulgação. Guilherme Arantes, cantor - (crédito: Vania Toledo/Divulgação)

» TOINHO CASTRO//Poeta e multiartista

Eu já vinha pensando em Guilherme Arantes quando me chegou a proposta para escrever esta crônica; meio que andava pelas ruas cantarolando mentalmente algumas de suas canções, que marcaram época e corações. Arantes é um hitmaker, e produziu melodias que grudaram no gosto popular e até hoje ecoam nas rádios e festas. No entanto… Neste ano de 2026, em que o artista completa 50 anos de carreira, fala-se nele, ou comenta-se sua obra, muito menos do que se deveria. Muito menos que o merecido. Há que se corrigir esse vacilo; até porque, Guilherme Arantes segue ativo e criativo, com seu piano, lançando discos, fazendo show e superpresente nas redes sociais. Gosto de acompanhá-lo, ouvir e ler seus comentários sobre música, arte e o estado das coisas.

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Neste 2026, em setembro, faz também aniversário redondo, 45 anos, a etapa final da edição de 1981 do festival de música MPB-Shell, que mobilizou artistas e público país adentro, nas suas três eletrizantes edições, de 80 a 82. Mas foi na de 81 que Guilherme Arantes defendeu sua música Planeta água, uma canção que, etapa após etapa do festival, cativou o país num crescendo afetivo. Abordando, já naquela época, um tema central das causas ecológicas e de preservação, num país em que as águas têm um papel definidor do modo de vida das populações, Arantes capturou o imaginário brasileiro, de maneira poética e profunda. Mas toda essa conexão nacional não levou Planeta água à vitória, ficando em segundo lugar na classificação. O Maracanãzinho lotado não perdoou o resultado e recebeu o primeiro lugar, a bela Purpurina, interpretada por Lucinha Lins, com uma vaia monumental, de 10 minutos, num triste episódio que merece outro papo.

Se o resultado foi justo ou não, deixo de lado essa discussão. Importa que Planeta água fez história com pioneirismo nas discussões sobre ecologia, com poesia e espírito pop. Para mim, é uma das grandes canções brasileiras, ponto. Na época, eu tinha 15 pra 16 anos, e lembro que meus amigos, que curtiam, como eu, rock'n'roll, torciam o nariz para a música, que seria, pejorativamente, muito pop, muito comercial e grandiloquente! Cafona mesmo. Eu nunca achei nada disso. O que eu via era uma grande beleza brasileira, que ainda hoje se confirma. Recentemente, caminhando de volta para casa e escutando a música no fone de ouvido, fiquei imensamente comovido; junto à calçada me acompanhava um riacho cristalino, ali no asfalto, fruto de alguma tubulação rompida. E meio veio o forte sentimento de presença da água entre nós. Dentro de nós. Água que nasce na fonte serena do mundo, canta Arantes.

Escrevi este texto, não por coincidência, mas pelo vertiginoso entrelaçamento de fatos randômicos, no Dia Mundial da Água, 22 de março. Guilherme Arantes foi quem melhor falou, dentro do seu território, sobre o tema. Corra para seu streaming, para o YouTube, e coloque Planeta água para tocar. Diz que a ideia da canção lhe veio de uma visita que fez às Cataratas do Iguaçu, e do impacto que isso lhe causou. A delicada melodia ao piano, costurada por uma letra tão bem construída, tão precisa na urgência de falar sobre aqui, e tão comovente mesmo, que no refrão final explode como as águas do Iguaçu. E é, então, impossível não pensar nesse país de litoral imenso, varrido pelo Atlântico Sul; nos gigantes Amazonas, Solimões e Rio Negro, no Tocantins, Madeira, Paraná, São Francisco, o Capibaribe, o Potengi, o novelo dos igarapés e tantos veios de água que nos cercam, encantam e alimentam. E pensar no frágil equilíbrio dessas criaturas. E pensar no Rio Doce morto, vivo ainda nas vozes de Beto Guedes e Joyce, na canção Rio Doce, de 1981! O Rio? É doce. A Vale? Amarga, escreveu Drummond no poema Lira itabirana.

Crescemos todos marcados pelo signo profundo da água; pelo que ela escreve em nós, pelo que ela nos dita no dia a dia de chuvas, enchentes, secas. Viver é ter a água como companheira. É abrir e ter água para beber, para viver essa alegria que é lavar as mãos. É saber que a lua cheia move as marés e mexe com nosso corpo de água. Tem uma passagem do livro Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão, também de 1981, que fala da morte dos rios, com a Casa dos Vidros de Água, onde jazem, em vidros expostos, a água que restou dos rios do país. 

Planeta água, mais que denúncia, é uma evocação, um chamado à consciência a partir da apreciação da beleza, arquitetada numa dimensão que coloca Arantes no panteão do grande cancioneiro nacional. Planeta água nos convida a voltar e perceber o mundo que resiste sob tudo que construímos como civilização. Sim, um alerta. Mas também um acalanto.

 


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Por Opinião
postado em 03/04/2026 06:10
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