
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não tem um plano de saída para a guerra que ele mesmo entrou contra o Irã. É o que ficou claro depois do discurso na noite de quarta-feira, quando ele substituiu a estratégia militar pela ameaça pura e simples. Ao declarar que pretende bombardear o Irã até fazê-lo "voltar à Idade da Pedra", o chefe da Casa Branca escancarou a ausência de um planejamento para uma intervenção que se mostra cada vez mais desastrada. Longe de projetar força ou tranquilizar a comunidade internacional, a retórica agressiva de Trump expõe a perigosa desorientação de uma superpotência encurralada no Golfo Pérsico pelas suas próprias e precipitadas decisões, e longe ainda de uma improvável admissão de erro.
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O pronunciamento escancarou um vácuo tático assustador. Trump subiu ao palanque sem apresentar qualquer caminho claro ou cronograma viável para o fim das hostilidades. Em vez disso, tentou minimizar a gravidade do conflito, pedindo aos norte-americanos que mantivessem a guerra "em perspectiva", enquanto se contorcia para acalmar um eleitorado domesticamente assombrado pela escalada nos preços dos combustíveis. É pouco provável, porém, que os cidadãos dos EUA, já pressionados por um aumento no custo de vida, comprem a retórica de Trump enquanto pagam cada vez mais caro no supermercado.
A prova de uma falta de rumo da Casa Branca atingiu o ápice quando o presidente descartou uma incursão por terra para capturar o urânio enriquecido, citou a operação na Venezuela que capturou o ex-presidente Nicolás Maduro como modelo de sucesso e chegou ao absurdo de declarar que o Estreito de Ormuz, artéria vital da economia global, "não é problema dos Estados Unidos".
A soma dessas declarações erráticas confirma o que a comunidade internacional já suspeitava: a ação militar norte-americana no Irã é, até o momento, um desastre em todos os aspectos. Não derrubou o regime, não estabilizou a região, isolou diplomaticamente os Estados Unidos e colocou o comércio mundial sob o risco de asfixia. A tentativa de forçar uma mudança de regime em Teerã pela via da força bruta esbarrou na complexidade de um Estado resiliente, que vem se preparando para este conflito desde a derrubada do xá Mohammad Reza Pahlavi em 1979.
A essa altura, a única via de escape racional do atoleiro vem sendo diagnosticada por analistas independentes. A solução exige uma dose cavalar de pragmatismo: Washington precisará exigir o fim verificável do programa nuclear iraniano, mas terá que aceitar, em contrapartida, que o regime dos aiatolás continue no poder. Trata-se da velha premissa diplomática de que não se pode obter na mesa de negociações aquilo que não se conquistou no campo de batalha. É preciso abandonar o delírio da mudança de regime e focar na contenção da ameaça atômica.
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O grande obstáculo para essa solução pacífica, no entanto, não reside apenas em Teerã, mas na própria Casa Branca. Adotar essa saída diplomática exigiria que os Estados Unidos reconhecessem que iniciar essa guerra preventiva foi um erro de cálculo monumental. E é aí que reside o maior perigo. Admitir o fracasso e recuar exige grandeza política, uma virtude que colide frontalmente com a natureza errática e autocentrada do atual Executivo norte-americano.
Para a diplomacia triunfar, Trump precisaria engolir o próprio orgulho, um sacrifício que ele historicamente se recusa a fazer. O risco iminente é que, na recusa em admitir que errou, o presidente americano decida levar adiante sua retórica primitiva. Ao tentar forçar o Irã de volta à Idade da Pedra, os Estados Unidos correm o sério risco de arrastar o resto do mundo junto com eles.

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