
Vira e mexe, abordo neste espaço a sensação de insegurança existente na Asa Norte. É um tema que acompanho de perto. Faz parte do meu dia a dia. Infelizmente, a percepção que se consolida entre moradores é de um quadro que se deteriora mês a mês. Não se trata apenas de sensação difusa, mas de evidências concretas. Há pontos conhecidos de consumo de drogas, aumento da população em situação de rua em quadras específicas, como 402, 403, 314, 315 e 316, entre outras, que passaram a figurar no mapa cotidiano da preocupação. À noite, a W3 praticamente se esvazia e expõe fragilidades.
Ao mesmo tempo, há uma reação recente do poder público. Com a saída de Ibaneis Rocha e a ascensão de Celina Leão ao comando do Buriti, a segurança ganhou protagonismo. Já foram duas solenidades oficiais voltadas ao tema. Apresentada nesta semana, a Operação Brasília Mais Segura, com mais de 1,2 mil policiais, sinaliza uma estratégia baseada na presença ostensiva, no policiamento a pé e na ocupação de áreas sensíveis. Uma espécie de Cosme&Damião dos dias atuais. Nos últimos dias, esse reforço tornou-se visível e necessário. A própria governadora reconhece o problema ao destacar o avanço do tráfico e a necessidade de retomada do controle territorial.
Mas segurança pública não se faz apenas com farda e veículos. Ela também se constrói na rotina urbana, na iluminação adequada, na manutenção dos espaços e, sobretudo, na integração entre Estado e comunidade. E é justamente nesse ponto que emerge uma contradição difícil de ignorar. Ao mesmo tempo em que se amplia o policiamento, silencia-se uma das ferramentas mais eficazes de prevenção, a Rede de Vizinhos Protegidos. Há 10 dias, moradores da Asa Norte foram, na prática, excluídos do fluxo de comunicação. Os grupos do WhatsApp continuam ativos, mas apenas administradores, todos militares, podem enviar mensagens. A justificativa oficial fala em avaliação de efetividade. O problema é o vácuo criado.
A RVP não é apenas um grupo de WhatsApp. É um instrumento de inteligência comunitária. Em uma sociedade marcada pela velocidade da informação, canais como esses cumprem papel decisivo. Alertam, previnem e conectam. Nem toda ocorrência vira boletim de ocorrência ou manchete de jornal. Muitas vezes, é o aviso do vizinho que evita um problema maior. Informação, nesse contexto, também é política de segurança.
Paralelamente, persistem falhas estruturais. A iluminação pública segue irregular em diversas quadras, apesar das reclamações recorrentes. Passagens subterrâneas sob o Eixão tornaram-se pontos de risco. E há um componente quase simbólico na repetição do problema. Cabos furtados, reparos feitos e, dias depois, o retorno à escuridão. É um ciclo que expõe a dificuldade do Estado em manter soluções duradouras.
O tema, inevitavelmente, transborda para o campo político. Segurança pública sempre teve peso eleitoral, mas ganha ainda mais relevância quando afeta diretamente o cotidiano de regiões tradicionalmente consideradas seguras. A Asa Norte, nesse sentido, funciona como termômetro. O eleitor não reage apenas a estatísticas, mas à experiência concreta, ao trajeto noturno, à quadra mal iluminada, ao grupo de mensagens que deixou de funcionar. Segurança não pode ser tratada como ação isolada ou resposta emergencial. Ela exige continuidade, coordenação e, sobretudo, confiança, que se constrói com diálogo, transparência e participação.

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