
O debate sobre terras raras ressalta um dilema secular da economia brasileira: permanecer como exportador de matérias-primas ou avançar na direção de uma estratégia de industrialização e agregação de valor capaz de transformar recursos naturais em riqueza, tecnologia e poder geopolítico. Em um mundo marcado pela transição energética e pela digitalização, minerais como neodímio, praseodímio, disprósio, térbio, lantânio e cério, insumos industriais com demanda crescente, passaram a ocupar o centro de uma disputa estratégica entre grandes potências.
Terras raras são elementos essenciais para a produção de ímãs permanentes usados em veículos elétricos e turbinas eólicas, baterias, catalisadores, fibras ópticas, equipamentos médicos e sistemas de defesa. O Brasil não é irrelevante nesse tabuleiro. Contamos com algumas das maiores reservas potenciais de terras raras do mundo, estimadas em dezenas de milhões de toneladas, com destaque para depósitos em Minas Gerais, Goiás e Amazonas. Também há ocorrência significativa desses minerais em rejeitos de mineração e em depósitos associados ao nióbio, o que amplia o potencial de exploração.
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Apesar dessa vocação geológica, o país ainda ocupa uma posição marginal nessa cadeia global de valor; a produção nacional é incipiente, concentrada em operações piloto ou de pequena escala. São raros os projetos em fase mais avançada. Não dominamos as etapas críticas de separação e refino, que são processos químicos complexos e intensivos em tecnologia, nem possuímos uma indústria consolidada de produtos de alto valor agregado, como ímãs de alto desempenho. Repete-se o padrão histórico retardatário: exportamos minério bruto ou concentrado e importamos, a preços muito mais elevados, os mesmos materiais industrializados ou embarcados em bens de consumo duráveis, máquinas e equipamentos.
Há um conjunto de projetos de lei que tratam da exploração de minerais estratégicos, incluindo terras raras, com propostas que vão desde maior controle estatal até incentivos à participação privada. A indefinição regulatória, somada à morosidade legislativa, cria insegurança jurídica e afasta investimentos de longo prazo — justamente aqueles necessários para viabilizar plantas de beneficiamento, centros de pesquisa e cadeias industriais completas.
No plano político, o senador Flávio Bolsonaro sinaliza uma estratégia de alinhamento com os EUA, país que busca reduzir sua dependência da China, que hoje é responsável por cerca de 70% a 80% da produção global e a quase totalidade do refino de terras raras. Já o presidente Lula defende que a exploração desses recursos deve estar condicionada ao beneficiamento interno, como forma de garantir geração de emprego, renda e desenvolvimento industrial.
A divergência revela escolhas de política externa: definir o lugar do Brasil na nova economia global. Ser apenas o elo inicial da cadeia — exportador de concentrados minerais — implica capturar uma fração reduzida do valor total. Por outro lado, investir em processamento, refino e manufatura exige coordenação entre Estado e mercado, financiamento de longo prazo, formação de mão de obra qualificada e desenvolvimento tecnológico.
Para isso, é necessário um marco regulatório claro e estável, que equilibre soberania nacional e atração de investimentos. Políticas industriais e de inovação que incentivem a instalação de plantas de separação e refino no país, reduzindo a dependência externa. E criação de fundos, crédito subsidiado, parcerias público-privadas, indispensável aos projetos de risco e maturação lenta. Portanto, precisamos integrar a mineração de terras raras a um projeto de reindustrialização, sobretudo em setores como energia renovável, mobilidade elétrica e defesa.
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