
Orlando Thomé Cordeiro — consultor em estratégia
As apostas fazem parte da cultura brasileira há séculos, atravessando períodos de proibição e legalização, refletindo as mudanças sociais e econômicas do país. No século 18, as primeiras casas de apostas começaram a surgir, impulsionadas pelo sucesso das corridas de cavalos, que se tornaram um passatempo popular, especialmente entre as classes mais altas.
No século 19, precisamente em 1892, surge o jogo do bicho. Uma ideia colocada em prática pelo barão João Batista Viana Drummond como forma de aumentar a arrecadação financeira do jardim zoológico criado por ele quatro anos antes. Como funcionava? Quando o visitante adquiria o ingresso, recebia uma figurinha de um dos 25 bichos da lista a serem sorteados. Quem tivesse a figura do bicho sorteado ganhava um prêmio em dinheiro. Em pouco tempo, essa iniciativa quase ingênua ultrapassou os limites do zoológico e ganhou as ruas do Rio de Janeiro e, posteriormente, de várias regiões do país, permanecendo viva até os dias atuais.
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A primeira metade do século 20 vivenciou o surgimento dos cassinos que foram legalizados em 1933 pelo presidente Getúlio Vargas. Combinando jogos com shows de artistas renomados no cenário nacional e internacional, essas casas se tornaram verdadeiros centros de entretenimento. No Rio de Janeiro, eram três: Cassino Atlântico, Cassino Copacabana Palace e Cassino da Urca. No estado de São Paulo, destacavam-se o Monte Serrat, em Santos, e o Cassino Paulista, na capital. Já Poços de Caldas, em Minas Gerais, com mais de 20 cassinos em funcionamento, chegou a ser apelidada de "Las Vegas brasileira".
Porém, em 30 de abril de 1946, três meses depois de assumir a Presidência da República, o general Eurico Gaspar Dutra pegou o país de surpresa e, com um decreto-lei, ordenou o fim dos jogos de azar, pondo fim ao fervilhante negócio dos cassinos. A justificativa para sua decisão, que permanece válida nos últimos 80 anos, era apoiada na "tradição moral, jurídica e religiosa" do brasileiro, que seria incompatível com os jogos, por serem nocivos aos bons costumes.
Dando um pequeno salto no tempo, em 15 de setembro de 1962 tivemos a realização do primeiro sorteio da Loteria Federal sob a administração da Caixa Econômica Federal. Posteriormente, foram criadas a loteria esportiva, popularmente conhecida como Loteca (1970), a Quina (1994), a Mega Sena (1996), a Lotomania (1999), a Dupla Sena (2001), a Lotofácil (2003) e a Timemania (2008).
O breve histórico acima mostra que a tradição de apostas no Brasil é longa e diversificada, mas, a partir de 2018, teve início uma mudança significativa desse panorama com a legalização das bets. Essa modalidade de jogo tornou-se uma verdadeira febre!
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E não é um crescimento fortuito. O relatório intitulado Investimentos Bets 2025 - Análise Estratégica do Setor de Apostas Esportivas, elaborado pela Tunad, indica que, apenas no ano passado, essas empresas fizeram investimentos em publicidade superiores a R$ 1,4 bilhão, somando TV aberta, TV paga, rádio e streaming. Em uma ação agressiva, o segmento já está entre os cinco primeiros lugares no ranking, dividindo o pódio com o varejo e a indústria farmacêutica, segundo dados de diversas pesquisas de mercado.
Uma das principais consequências é o aumento de casos de problemas de saúde mental, como comprovam inúmeros relatos publicados na mídia. Além disso, há casos e mais casos de pessoas que simplesmente perderam todas as suas economias. Na verdade, é um comportamento típico de viciados.
Como enfrentar tal situação? Creio que precisamos criar movimentos de pressão sobre o Congresso Nacional de modo a proibir a publicidade das bets em TV aberta, rádios e revistas. Analogamente, no ano 2000 foi possível fazer o mesmo para os fabricantes de cigarro. Quem acompanhou esse movimento na época certamente se lembra da resistência do lobby daquela indústria e dos setores por ela patrocinados, mas a força da mensagem conseguiu ser vitoriosa.
Vencida essa etapa, poderíamos aproveitar para fazer o mesmo em relação às bebidas alcoólicas, já que o alcoolismo é o mais grave problema de saúde pública, com quatro pessoas hospitalizadas por hora e uma morte a cada cinco minutos por consumo excessivo. Cerca de 10% da população sofre com esse tipo de dependência.
Não se pode discutir tais medidas com base em moralismo. Cabe às pessoas decidirem, livremente, se querem apostar, fumar e beber. O que não se pode é permitir o incentivo ao consumo. Por tudo isso, agora é hora da campanha com o mote "chega de publicidade de bets".
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