Ludmilla Aguiar — professora do Instituto de Biociências e da pós-graduação em ecologia da UnB
e especialista em morcegos
Vou te contar uma dessas histórias que parecem simples, mas que só entendemos depois de crescer. A noite nunca está vazia. Mesmo quando parece tudo quieto, tem movimento no céu. Aqui no Cerrado, tem morcegos voando toda noite. Indo e voltando. A gente não vê, não escuta, não pensa neles. Mas eles trabalham muito.
Morcego insetívoro passa a noite inteira comendo inseto. E não é pouco. Ao longo da noite, pode comer quase o dobro do próprio peso em insetos, vários deles pestes agrícolas e vetores de doenças. Sem ninguém mandar, sem ninguém pagar, sem você estar envolvido, os morcegos suprimem parte dessas populações noite após noite. E isso faz muita diferença.
Enquanto essa função natural está acontecendo, a pressão das pragas diminui, o produtor precisa usar menos agrotóxico. Menos veneno no campo, menos resíduo no alimento, menos impacto para quem planta e para quem come.
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Agora pensa no contrário. E sem morcegos? Quando os morcegos desaparecem, há desequilíbrio. As pragas avançam. E o que entra no lugar é o agrotóxico. Mais veneno, mais exposição humana e de outros organismos, doenças e mais custos. Ainda assim, quase ninguém percebe que esse "serviço" de tirar praga estava sendo feito antes.
E isso já aconteceu. Um estudo de 2024 no periódico Science identificou a mortalidade de morcegos devido à síndrome do nariz branco, uma infecção fúngica que atinge esses animais. Eles foram quase dizimados, discretamente, como sempre. Alguns anos depois, foi necessário aumentar o uso de agrotóxicos em 31% e, logo, apareceram os efeitos na saúde humana: aumento de 8% na mortalidade infantil. Ninguém olhou para o céu e pensou nos morcegos. Mas eles atuaram na história.
Para evitar essa cegueira, surgiu há um tempo, não como moda, mas como estratégia para conservação da biodiversidade, um conceito que hoje aparece em todo lugar: serviços ecossistêmicos.
Por muito tempo, cientistas vêm dizendo que a natureza precisa ser conservada por seu valor próprio, por seu direito de existir. Isso é verdade, mas nunca freou a destruição. Então surgiu uma nova forma de explicar a mesma coisa. Mostrar que a natureza não é só bonita ou importante. Ela sustenta a nossa vida. Serviços ecossistêmicos são os benefícios que recebemos gratuitamente da natureza, sem a interferência humana.
Na ecologia, existem funções ecológicas, os processos naturais como um morcego comer inseto, uma abelha polinizar uma flor, um animal comer um fruto ou carregar no corpo sementes que serão deixadas pelo caminho e brotarão. Essas funções não existem para nos servir, existem porque a natureza está funcionando. Quando essas funções nos beneficiam, elas viram um serviço ecossistêmico.
O morcego não está "prestando um serviço". Está fazendo o que sempre fez. Mas, se ao fazer isso ele reduz pragas, reduz o uso de veneno e melhora a qualidade do alimento, isso, para nós, é como um serviço gratuito. Estamos tão acostumados a pagar por tudo que tem valor que esquecemos que a natureza fornece coisas essenciais sem cobrar nada.
O solo que sustenta a produção, a vegetação que segura a água das enchentes, a dispersão de sementes que forma a vegetação, a polinização que produz os frutos que consumimos. Sem polinização e dispersão não existe paisagem natural.
Mas tem outra coisa que pouca gente fala. Nem tudo que envolve natureza é serviço ecossistêmico. Hoje, a gente mexe tanto no ambiente para produzir mais que parece que tudo é "serviço da natureza". Mas não é bem assim.
Quando a gente usa insumos para forçar produção, podemos até usar partes da natureza. Mas isso não é a natureza trabalhando por nós. Somos nós explorando a natureza a serviço da produção a curto prazo.
Serviço ecossistêmico, como em sua origem, é aquele que emerge do funcionamento da natureza, sem que a gente redesenhe tudo. Por isso a importância desse conceito. Ele mostra que conservar a natureza não é só uma escolha bonita. É condição de sobrevivência.
Mas há o risco de que, quando tudo vira número, a gente esqueça que a natureza não vale só pelo que pode ser medido. Ela tem valor cultural, estético, emocional. Tem lugar no mundo onde os médicos receitam que as pessoas entrem na floresta para cuidar da saúde.
A gente vive cercado disso. Uma árvore que refresca a rua. Um pedaço de Cerrado que ajuda a água a entrar no solo. Um morcego que, sem ninguém notar, suprime insetos.
Talvez, o maior problema seja que só percebemos o serviço quando ele cessa. Quando a enchente vem, o calor aumenta, a comida muda, a saúde piora. Ou quando algo tão distante quanto a morte de crianças começa a aparecer nos números, e ninguém entende direito de onde vieram.
A natureza sempre esteve trabalhando. Será que vamos reconhecer isso a tempo de deixar a natureza trabalhar? Afinal, o que sustenta a nossa vida raramente faz barulho. E te digo isso não só como quem ouviu histórias, mas como quem pesquisa e vê isso acontecer todos os dias e todas as noites.
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