
» MARCELO COUTINHO Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em indústria do hidrogênio verde
Por quanto tempo mais o mundo ficará refém das confusões no Golfo Pérsico? A indústria do petróleo se transformou no maior transtorno para o planeta inteiro, mesmo para os países que o vendem. A guerra no Irã é apenas mais uma de uma longa série histórica, mas criou uma conjuntura tão insegura de desabastecimentos e aumento de preços que leva os países a finalmente darem um basta nessa dependência.
As palavras do líder sul-coreano resumem o sentimento hoje no mundo: "É uma situação tão grave que nem eu consigo dormir. A Coreia do Sul precisa fazer a transição para energias renováveis rapidamente. Se continuarmos dependendo dos combustíveis fósseis, o futuro será extremamente arriscado", afirmou Lee Jae-myung.
Não é só a guerra o problema. A emergência climática é outro ainda maior, pois representa ameaça existencial às civilizações de proporção mais apocalíptica do que uma eventual terceira grande guerra. O sequestro do Estreito de Ormuz faz o diesel, o querosene de avião e os fertilizantes sumirem dos mercados temporariamente. Já o "sequestro" do clima põe em risco permanente a vida no planeta. E ambos os crimes são perpetrados pela indústria do petróleo e gás natural.
A transição energética é uma realidade. As fontes renováveis cresceram mais 15,5% no ano passado, e já haviam crescido 15,1% dois anos antes. A capacidade global de energia renovável atingiu 5.149GW em 2025, um aumento de 692GW em relação a 2024. A energia renovável já representa 50% da capacidade elétrica mundial. As novas instalações de energia eólica totalizaram 159GW, elevando a capacidade instalada total para 1.291GW. Mas o aumento da energia solar foi ainda maior, saltando em 511GW em 2025, atingindo 2.392GW.
- Leia também: Impacto da crise climática não é igual para todos
Desde o ano passado, as fontes de energia renováveis geram mais eletricidade do que o carvão globalmente. No total, as energias renováveis fornecem mais de um terço da eletricidade global. Todos esses dados não deixam margem a dúvidas: a transição energética está em andamento de uma forma robusta, sistêmica e acelerada, ainda que muitos países resistam a aderirem à nova ordem energética mundial. O governo Trump atrapalhou muito, mas não conseguiu parar esse movimento histórico.
O atual choque do petróleo obrigou os países a reconhecerem, de uma vez por todas, que os combustíveis fósseis não oferecem sequer segurança energética, o que derruba o último mito com relação a essa indústria: o mito de que os combustíveis fósseis são despacháveis de forma a garantir o abastecimento. Os combustíveis fósseis representam tudo menos segurança. São fontes de grande instabilidade política, econômica e climática. Os países que menos sofrem neste momento são aqueles com mais fontes renováveis de energia.
A crise no Oriente Médio expõe os altos riscos à segurança energética relacionados aos combustíveis fósseis. Mesmo que essa guerra acabe logo, está claro para todos que o Golfo Pérsico pode se inviabilizar em algum outro momento, o que deixa o mundo refém de grupos locais de interesse que não demonstram nenhuma preocupação com o bem-estar civilizatório. A mesma insegurança acontece no Leste Europeu. Em resumo, não se deve depositar o presente e o futuro da humanidade no Golfo ou no Mar Báltico, que podem simplesmente deixar de funcionar — de serem operantes — de uma hora para outra.
Se a emergência climática não foi suficiente para convencer alguns governos recalcitrantes a fazerem o que têm que fazer, a guerra será. A insegurança que o mercado de petróleo cria é geral e imediata. Mata pessoas e economias de um modo ou de outro, seja com mísseis, seja com bombas de calor. A transição energética está no centro da mesa da agenda mundial porque envolve segurança em todos os seus aspectos. Superar a dependência fóssil virou uma questão central para as nações.
Até aqui, a China é a que mais tem sabido aproveitar a transição energética. Depois das energias solar e eólica, e depois da eletrificação dos carros, a potência asiática agora investe pesadamente na indústria do hidrogênio verde, a última peça desse quebra-cabeças que está redefinindo o mundo. A China emerge como a grande potência da era pós-combustíveis fósseis e, com outros, está se tornando um eletro-Estado. Esse assunto deverá ser obrigatoriamente debatido nas eleições deste ano no Brasil. Com a palavra, os candidatos.

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