
Em 16 de setembro de 1857, o Correio Paulistano publicou uma carta assinada por "O Viajante". Reproduzo, aqui, com a grafia atualizada.
"Sr. Redator — Rogo-lhe a publicação de um fato criminoso que se passou na estrada do Campo Novo, distante da cidade de Bragança uma légua, quando estes dias passei de viagem. Em uma casinha na estrada onde mora João de Sousa Dias Guimarães, castigava a mulher deste a uma escrava. Este estava na cidade, de onde chegou espirituoso, e, informado do caso, passou a dar pancadas na dita escrava com um pau que trazia, e dizem que ela estava amarrada em um banco, pelo que quebraram-se-lhe alguns ossos e caiu-lhe a madre (útero, na medicina popular arcaica). Como no regresso à minha cidade de Bragança, soube que a escrava ainda estava mal e estava-se tratando na descida do Lava-pés em casa de um irmão do mesmo Sousa, e que deste fato não se tinha feito corpo de delito por não ter chegado ao conhecimento das autoridades policiais este crime de natureza brutal, que ligeiramente fica narrado."
A voz do Viajante soa solitária entre os anúncios de venda, aluguel e compra de escravizados nos jornais brasileiros do século 19. Ao relato do narrador anônimo se sobrepõem os de "proprietários", como os Sousa, que faziam saber coisas como "Vende-se uma preta, muito moça com cria" ou "Na Rua da Quitanda Nº 29, precisa-se de alugar um escravo para serviço de casa, e dá-se-lhe de comer."
Eram ainda mais numerosos os anúncios de recompensa por escravizados fugidos. As descrições dão alguma ideia de como essas pessoas eram tratadas. "Fugiu da Fazenda de Boa Vista de Pirassununga o escravo Simão, 25 anos, preto, altura regular, sem barba e desdentado, tendo na mão direita só dois dedos indicador e polegar, e um caroço nas costas do lado esquerdo." "José, preto, pouco fala, 25 anos de idade, pouca barba, altura regular, cheio de corpo, tem falta de um dente na frente, uma cicatriz no rosto e outra em um dos braços e dois sinais de ferida na canela."
Cento e sessenta e nove anos depois do relato do Viajante e passados 138 da assinatura da Lei Áurea, uma notícia parece nos ter levado às páginas amareladas dos jornais de antigamente. O caso da mulher que torturou física e psicologicamente uma jovem negra e grávida, orgulhando-se de estar com a mão doendo de tanta pancada desferida, nos chocou tanto quanto ao morador anônimo de Bragança a história da escravizada que perdeu o útero na sessão de castigo.
Se hoje temos muito mais vozes como a do Viajante indignado, não podemos negar que a sociedade brasileira ainda está impregnada de patroas e patrões como os Sousa do século 19. Carolina Sthela Ferreira dos Anjos é prova disso.
Nem todos agirão como ela, colocando arma na boca da empregada, ameaçando matá-la e batendo com tapas, socos e coronhadas. A agressão também se dá por humilhações sutis, pelo excesso de tarefas, pela reclamação quando há reajuste na diária, ou se é necessário conceder uma folga inesperada.
É preciso sair da sombra da casa grande, mas mantemos um pé lá. Até a forma como a torturadora foi conduzida à delegacia — com muita educação e quase um pedido de desculpas pelo policial (que gaguejava ao dar voz de prisão) — nos lembra que, apesar de alguns avanços, estamos ainda perigosamente muito próximos dos Sousa. Que sejamos sempre Viajantes.
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