
André Gustavo Stumpf — jornalista
Donald Trump e Xi Jinping conversam em Pequim, e os brasileiros tentam antecipar o que será combinado entre os dois grandes da economia mundial. Juntos, eles significam 40% do comércio internacional. Desde Barack Obama, o governo dos Estados Unidos age no sentido de conter o veloz desenvolvimento econômico dos chineses. Na era Trump, os norte-americanos aumentaram muito suas tarifas específicas para produtos daquele país. Pequim respondeu na mesma medida. Também elevou tarifas.
Porém, Pequim fez mais: começou a vender seus títulos do tesouro norte-americano. Os chineses chegaram a deter cerca de US$ 1trilhão investidos naquele título. Hoje, possuem cerca de US$ 700 bilhões naquele papel. Uma das consequências desse movimento de xadrez financeiro foi a queda do valor do dólar em todo mundo. O dólar nunca esteve tão baixo. Os chineses inundaram o mercado com os títulos do Tesouro norte-americano e começaram a utilizar sua moeda, o renminbi, em seus negócios internacionais. Foi outro violento ataque ao dólar.
No sentido inverso, o ouro conseguiu extraordinária valorização. Os bancos centrais de diversos países perceberam a queda do valor do dólar. Passaram a fazer reservas em ouro. A consequência no Brasil foi curiosa: explodiu o comércio do ouro por toda a Amazônia. A Polícia Federal (PF) e o Exército não conseguem controlar a lavra e a pesquisa do vil metal. Os números são eloquentes: a medida do ouro é chamada de onça troy, que equivale a 32g do metal. Seu preço hoje está na faixa de US$ 4.600 a US$ 4.800, o que, com o dólar em torno de R$ 5, resulta em R$ 23 a 25 mil. Trata-se de mercado internacional. O metal tem esse valor em Itaituba, no interior da Amazônia, ou em Amsterdã, na Holanda.
A evolução do preço do ouro nos últimos anos supera o de qualquer ação na Bolsa de Valores. Em 2021, era de US$ 1.829. Hoje, passou de US$ 4.800, com forte aceleração nos últimos dois anos. Valorização de 170% em cinco anos. Ótimo negócio. Em termos práticos, quem comprou ouro em 2020 praticamente dobrou o capital em dólares.
A estimativa da Agência Nacional de Mineração (ANM) é de que saem do país, sem pagar imposto, 15 a 20 toneladas de ouro por ano, com valor aproximado de R$ 5,5 bilhões/ano. Grande parte não aparece como contrabando clássico, mas é esquentado com documentos falsos. É mercado bilionário, comparável a outros grandes crimes econômicos no Brasil. Os compradores do ouro brasileiro no exterior são, em geral, atores formais do mercado global, não contrabandistas diretos.
Na Suíça, funciona o maior centro mundial de refino de ouro. O metal é vendido para bancos, joalherias e investidores. Em Londres, opera o centro financeiro global do ouro, Dubai tornou-se grande hub para ouro de origem africana e sul-americana. Índia, grande consumidor de ouro em joias. China compra ouro para investimento e para indústria. O chinês médio costuma fazer reserva financeira em ouro para se sustentar na idade provecta. Antes era o dólar, agora é o ouro. Além desses, há compradores no Canadá e nos Estados Unidos.
Tudo começa com o garimpo ilegal, na Amazônia, em terras indígenas, e o posterior esquentamento com documentos falsos. Não existe um comprador criminoso único. O sistema envolve empresas brasileiras, refinarias internacionais e multinacionais. O garimpo, especialmente o ilegal no Brasil, raramente é autônomo. Em muitos casos, há financiadores por trás, que bancam a operação e ficam com a maior parte do lucro. Esses financiadores aparecem em diferentes níveis da cadeia: há empresários e redes logísticas, donos de pistas de pouso clandestinas, aviões, balsas e rotas de transporte. Funcionam como infraestrutura do garimpo. Facções e redes ilegais atuam em várias áreas: controle territorial, segurança armada e lavagem de dinheiro.
O garimpo ilegal no Brasil é financiado por rede econômica estruturada, que inclui investidores locais, empresas de compra de ouro, logística ilegal, crime organizado e demanda internacional. Ou seja: não é uma atividade isolada de trabalhadores pobres. É negócio organizado e altamente lucrativo. O garimpeiro recebe entre R$ 1.500 e R$ 4.000 por mês. A situação típica é trabalho pesado, renda instável e o risco de procurar durante semanas e não achar nada.
A consequência desse comércio é que a densa floresta na Amazônia esconde 2.837 pistas de pouso irregulares — ou seja, não têm cadastro junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Quase 814 delas estão dentro de terras indígenas ou unidades de conservação. São números do Ministério da Defesa. A rede de infraestrutura para pesquisa, lavra e venda do ouro está em crescimento, porque opera junto com o narcotráfico. Trump e Xi Jinping conversam em Pequim, mas as consequências são percebidas no interior da Amazônia.
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