Visão do Correio

Vias abertas na América Latina

Passadas algumas décadas do ciclo de ditaduras militares, é ainda na polarização entre o que se pode — ainda — definir como direita e esquerda que se delimitam as disputas eleitorais na região

. -  (crédito: Caio Gomez)
. - (crédito: Caio Gomez)

Os últimos movimentos de Donald Trump em sua ofensiva contra o regime comunista de Cuba, visto em perspectiva com outros desdobramentos em curso na América Latina, dão toques algo mais preocupantes quanto ao futuro político da região. No pano de fundo dos focos de tensão, que se multiplicam, há uma polarização entre o que se pode — ainda — definir como direita e esquerda. Passadas algumas décadas do ciclo de ditaduras militares dos anos 1960 a 1980, é ainda nesse marco, em grande parte, que se delimitam as disputas eleitorais que se sucedem a intervalos regulares, com maiores ou menores turbulências.

No que diz respeito a Cuba, a Justiça dos Estados Unidos vem de indiciar criminalmente o ex-presidente Raúl Castro, irmão mais novo de Fidel, líder da revolução de 1959. Embora afastado de funções práticas no regime, aos 94 anos, Raúl parece transformado em uma espécie de troféu oportuno para justificar uma ofensiva militar destinada a virar a mesa na ilha — em tempo para dar cacife a Trump e ao Partido Republicano nas cruciais eleições legislativas de novembro, em que a maioria governista parece em risco em ambas as casas do Congresso.

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Talvez mais urgente seja a situação na Bolívia, onde um levante social ameaça colocar nas cordas o recém-empossado presidente Rodrigo Paz, um político que se impôs nas urnas com perfil de centro-direita, mas rapidamente assumiu um perfil trumpista. Sem contestar propriamente o resultado das urnas, as bases eleitorais da esquerda, que governou o país por duas décadas liderada por Evo Morales, primeiro presidente originário da maioria indígena, a esquerda marcha para a capital, bloqueando estradas, para pressionar pela renúncia.

Em paralelo a dois pontos de ebulição, transcorrem dois processos balizados, ao menos até aqui, pelos parâmetros democráticos e eleitorais. No último domingo deste mês, os colombianos vão às urnas escolher o sucessor de Gustavo Petro, ex-guerrilheiro e primeiro político de esquerda a presidir o país em dois séculos de vida independente e republicana. As pesquisas favorecem o candidato governista, filho de um candidato presidencial assassinado por esquadrões de ultradireita em 1992. Dois pretendentes de direita disputam vaga para enfrentá-lo em um possível segundo turno.

Direita contra esquerda é o confronto marcado para uma semana depois. Keiko Fujimori, filha do controverso ex-presidente Alberto Fujimori, larga como favorita em sua quarta tentativa de chegar à Casa de Pizarro. Terá pela frente, além da rejeição histórica aos desmandos e tropelias do pai, um adversário surpresa, o deputado Roberto Sánchez, do partido esquerdista Juntos pelo Peru. As últimas pesquisas favorecem Keiko por 39% a 35%. Lá, porém, o maior desafio vem após a posse: o último presidente a terminar o mandato foi Ollanta Humala, em 2016.

É nesse quadro de polarização, e sob a influência de Donald Trump — ora furtiva, ora ostensiva —, que o Brasil se encaminha para a campanha à eleição presidencial de outubro. A Copa do Mundo tende a se sobrepor ao debate político, por algumas semanas. Uma vez terminada, todas as atenções estarão concentradas na disputa entre o presidente Lula, que tenta o quarto mandato próprio (e o sexto do PT), e um adversário da direita antipetista.

Aqui, como em toda a vizinhança imediata ou próxima, são basicamente os mesmos polos em que a sociedade se divide, com maior ou menor grau de radicalização. Em cada processo, é a maturidade do sistema democrático que está à prova.

 

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Por Opinião
postado em 21/05/2026 06:00
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