Visão do Correio

Faroeste contra as facções não costuma resolver

Não é no faroeste das comunidades abandonadas que o Estado, em nome da sociedade, derrotará as protomáfias geradas e alimentadas por décadas de equívocos e conivência

Operação da Receita contra o PCC: a frente mais promissora é a da inteligência -  (crédito:  Divulgação/ Receita Federal)
Operação da Receita contra o PCC: a frente mais promissora é a da inteligência - (crédito: Divulgação/ Receita Federal)

A ideia de que os Estados Unidos classifiquem oficialmente como organizações terroristas as facções criminosas brasileiras volta à tona depois do encontro de Flávio Bolsonaro com Donald Trump. Segundo o próprio relato sobre a reunião, o senador e pré-candidato ao Planalto insistiu com o anfitrião para que adote a definição.

De um ponto de vista estritamente prático, esse movimento teria como implicação que as forças militares e de segurança dos EUA estariam autorizadas, pela legislação norte-americana, a planejar e executar operações, inclusive em território brasileiro, contra Comando Vermelho (CV), Primeiro Comando da Capital (PCC) e outras organizações criminosas.

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À parte as discussões em torno da nossa soberania, vale examinar o histórico das experiências de adotar uma abordagem militar e bélica para enfrentar o fenômeno, universal e em expansão, do crime organizado. A história recente da América Latina, em particular no século 21, oferece ao menos dois exemplos que o Brasil deveria examinar com atenção.

A Colômbia despontou nos anos de 1980 como maior produtora e exportadora de cocaína, na maior parte destinada ao mercado estadunidense. Foi distinguida como alvo prioritário da "guerra às drogas" proclamada por Ronald Reagan, na época à frente da Casa Branca. A estratégia militar quebrou, nos anos de 1990, os cartéis de Medellín e Cali. Mas a economia doméstica do narcotráfico entranhou-se no interior abandonado, entrelaçada ao conflito armado com a guerrilha de esquerda. Hoje, o país segue como origem principal da cocaína consumida nas ruas dos EUA — e das grandes cidades europeias.

A desarticulação dos cartéis colombianos não apenas se mostrou inócua para estancar a oferta de drogas nos Estados Unidos — a parte que, ontem como hoje, se apresenta como interessada no combate ao narcotráfico. A posição dominante foi assumida, em boa parte, por organizações criminosas do México, até pelo acesso geográfico privilegiado ao mercado norte-americano.

Entre 2006 e 2012, o presidente Felipe Calderón declarou sua "guerra às drogas". No período, assistiu ao nascimento de uma facção formada basicamente por militares e policiais integrantes de uma unidade de elite instituída justamente para o combate frontal aos cartéis: à medida que avançavam no terreno, assumiam para si o comando das operações criminosas. A herança do processo contabiliza 60 mil mortos e mudanças apenas nos nomes de quem comanda o negócio: hoje, além de operar na Colômbia, os cartéis mexicanos operam nas regiões fronteiriças da Amazônia brasileira.

O crime organizado demonstra historicamente capacidade maior que a das forças de Estado para reciclar-se. No Brasil, assim como na Colômbia e no México, buscou e segue buscando meios para se inserir no tecido social legal, não apenas econômico, mas igualmente político e mesmo judicial. Os resultados recentes no combate às facções, por aqui, atestam que a frente mais promissora é a da inteligência, da investigação meticulosa.

Não é no faroeste das comunidades abandonadas que o Estado, em nome da sociedade, derrotará as protomáfias geradas e alimentadas por décadas de equívocos e conivência. A hidra a ser decapitada veste terno e gravata, tem CPF e CNPJ. 

 

 

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Por Opinião
postado em 28/05/2026 06:00
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