Lançado como Copa dos Campeões da Europa na temporada de 1955/1956 e rebatizado de Champions League em 1992, o principal torneio de clubes do Velho Mundo só tem um técnico negro campeão em 70 edições. Em 17 de maio de 2006, o holandês Frank Rijkaard levou o Barcelona de Ronaldinho Gaúcho ao título contra o Arsenal de Thierry Henry, em Saint-Denis, na França.
Aos 40 anos, o ex-zagueiro Vincent Kompany, dono da prancheta do Bayern de Munique, tenta ser o segundo treinador preto a conquistar a Orelhuda. Protagonista de um senhor jogo na última terça-feira na derrota do time alemão por 5 x 4 para o Paris Saint-Germain no Parque dos Príncipes, o belga merece muito mais pelo engajamento no combate ao racismo do que pelo futebol encantador da trupe bávaro liderada por Olise, Kane e Luis Diaz. A classificação para a final única em Budapeste, na Hungria, será decidida quarta-feira, na Allianz Arena.
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Carrasco do Brasil nas quartas de final da Copa de 2018 ao participar do lance do primeiro gol da Bélgica na vitória por 2 x 1, Kompany é aquele técnico que não se escondeu e comprou a briga de Vinicius Junior contra a injúria do argentino Prestianni do Benfica. Enquanto colegas como Luis Enrique, adversário dele nas semifinais, Pep Guardiola e José Mourinho mediam palavras e até questionavam revolta de Vini, Kompany fez o discurso solitário e veemente contra a corrente — e em defesa do atacante brasileiro.
"Jose Mourinho disse que o Benfica não pode ser racista, porque o seu maior jogador de todos os tempos foi Eusébio. Ele sabe o que os jogadores negros tiveram que passar na década de 1960? Ele estava lá viajando com Eusébio em todos os jogos fora de casa para ver o que ele sofreu? Usar o nome dele hoje para discutir com o Vini…", ironizou.
O engajamento de Kompany contra o racismo vai além do episódio de Vinicius Junior. Ex-parceiro de Romelu Lukaku na seleção da Bélgica, ele também foi a público blindar o companheiro. Em 2019, o então centroavante da Internazionale sofreu injúria num partida contra o Cagliari. Kompany bradou: "Romelu é vítima de algo vergonhoso não apenas no futebol, mas na sociedade. Isso volta até de quem esperamos as decisões, e os problemas estão nessas organizações", reclamou o então técnico do Anderlecht.
"O racismo real está no fato de que nenhuma dessas instituições têm representantes que realmente podem entender o que Romelu está passando. Você está lidando com várias pessoas, e quem tem o poder está dizendo a ele como ele (Lukaku) deve pensar e sentir quando, na verdade, essas pessoas não têm a menor ideia do que ele viveu. Essa é a verdadeira questão. Se você vai nas diretorias da Uefa, Fifa, a liga italiana ou a liga inglesa, há uma real falta de diversidade. Simples assim", disparou Vicent Kompany.
No início da carreira, o próprio treinador sofreu racismo em um jogo do Anderlecht contra o Brugge. "Deixo este jogo chateado. Ao longo da partida, a comissão técnica e eu fomos insultados. Insultos racistas que também foram dirigidos aos jogadores. O dia terminou mal. Vou me encontrar com a comissão e com as pessoas que são importantes para mim. Não devemos vivenciar o que passamos aqui", contestou, à época, depois da partida válida pelo Campeonato Belga.
Ativistas antirracismo como Vincent Kompany são raros. Um campeão na vida. Que seja também na Champions League.
