Havia um respeito quase que transcendental quando a Ladainha de todos os Santos começou a ecoar pelos alto-falantes espalhados pela Praça de São Pedro, na Cidade do Vaticano. Foi naquele 7 de maio de 2025 que percebi o peso de tudo o que ocorria bem diante de meus olhos: a história se desdobrava ao sabor de uma tradição secular. Pouco depois, escutava as vozes de cada um dos 133 cardeais eleitores prestando juramento e conclamando a fidelidade absoluta e irrestrita à Igreja Católica. Apontei a câmera do celular para o centro das imensas colunatas do Vaticano, acionei o perfil do Instagram do Correio Braziliense e comecei a narrar tudo aquilo que acontecia. Pouco depois, fiz o mesmo, dessa vez sentado na sala de imprensa da Santa Sé, de onde acompanhei o último dos cardeais deixar a Capela Sistina e escutei a batida seca das imensas portas, seladas pelo arcebispo Diego Ravelli, mestre das Celebrações Litúrgicas Pontifícias.
As horas seguintes foram de espera e de suspense. Uma multidão de turistas e fiéis chegava à Praça de São Pedro. Todos tinham os olhares voltados para a pequena chaminé da Capela Sistina. Na tarde seguinte, a fumaça branca foi acompanhada de gritos de euforia e de lágrimas. A Igreja não estava mais órfã. Demorou um pouco para o anúncio de Robert Prevost como novo papa, batizado de Leão XIV. Conterrâneo do pontífice, um norte-americano pendurado na barreira divisória do caminho dos peregrinos, na Via de La Conciliazione, que liga a Basílica de São Pedro a Roma, gritava sem parar. Estava em êxtase.
Em um ano de pontificado, Leão XIV surpreendeu ao tecer críticas incisivas e diretas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O pontífice tem condenado, de forma reiterada, a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã. A viagem apostólica para a África reconduziu o continente ao centro do debate sobre a paz, a miséria e a necessidade de reconciliação em países e regiões arrasados pela guerra civil. Se a missão de Leão XIV começou modesta nos meses iniciais à frente da Igreja, o sucessor de Francisco mostrou a que veio.
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Sem meias-palavras e abandonando um pouco o tom excessivamente diplomático de muitos papas, Prevost desponta como líder religioso e estadista capaz de mediar conflitos e denunciar excessos de governantes. Depois de criticar e de ser criticado por Trump, o pontífice tentou contemporizar e evitou polêmicas. Até o fim do mandato do republicano, será interessante ver como Leão XIV se comportará antes os desmandos e despudores de um governante que se acha imperador e que chegou ao sacrilégio de se comparar a Jesus Cristo.
Ontem, Trump emitiu um novo ataque verbal contra Leão XIV. O titular da Casa Branca acusou o papa de "colocar em perigo muitos católicos". A justificativa é de que o pontífice "pensa que é legal para o Irã ter uma arma nuclear". Dessa vez, Prevost preferiu o silêncio — ao menos até o momento em que escrevo estas linhas. A julgar pela personalidade de Leão XIV, é provável que Trump não fique sem resposta. Ainda bem.
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