Visão do Correio

Revisão necessária da morte de JK

Por décadas, a morte de Juscelino Kubitschek foi tratada como uma fatalidade. Em nome da democracia, é justo e necessário que se estabeleça a verdade sobre este grande brasileiro

O Brasil está a poucos meses de ter um reencontro importante com a história. No próximo 22 de agosto, completam-se 50 anos da morte de Juscelino Kubitschek de Oliveira, fundador de Brasília e considerado por muitos o maior estadista do país. Homem público que mudou o rumo do desenvolvimento econômico brasileiro e aprofundou a integração nacional, Juscelino era, além e acima de tudo, um democrata. E, como tal, foi implacavelmente perseguido pelo regime de repressão. 

Após deixar a Presidência da República, JK elegeu-se senador por Goiás em 1961. Mas o golpe militar de 1964 cassou-lhe o mandato parlamentar. A perseguição política obrigou Juscelino a se exilar na França, onde permaneceu até 1967. Ele volta ao Brasil, mas é proibido pelo governo Médici de visitar a capital federal. Em 1976, pouco antes de completar 74 anos, JK morre em decorrência de um acidente de carro na Rodovia Dutra. 

Por décadas, a morte de Juscelino Kubitschek foi tratada como uma fatalidade. Essa versão oficial, sempre colocada em dúvida, foi seriamente contestada com a revelação do que um relatório produzido pela Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) concluiu: o ex-presidente foi vítima de um atentado político. Fruto de investigações recentes, o documento de 5 mil páginas será votado pelos integrantes do colegiado. 

Neta de JK e presidente do Memorial em homenagem ao fundador de Brasília, Anna Cristina Kubitschek acredita que a revisão do que aconteceu com o avô "representa um passo importante para a verdade histórica no Brasil". E acrescenta:
"A família considera fundamental que o Brasil enfrente sua história com coragem e transparência. Caso a CEMDP conclua, oficialmente, que JK foi vítima de um atentado político, será um reconhecimento histórico necessário — não apenas para sua memória, mas para todas as vítimas da violência do Estado".

Recentemente, o Brasil e o mundo se comoveram com o premiado filme Ainda estou aqui. A obra faz uma revisão histórica da morte de Rubens Paiva, sequestrado, torturado e assassinado pela ditadura militar em 1971. Retrata ainda a luta incansável de Eunice Paiva, personagem central no esforço das famílias que buscam o reconhecimento oficial e a reparação por abusos cometidos por agentes do Estado durante o regime militar. A morte de JK também se insere nesse contexto.

Para se fortalecer como democracia, o Brasil precisa trazer à luz o que permanece nas sombras da história. O caso de JK é emblemático, pois simboliza o anseio de milhares de brasileiros que sofrem até hoje as consequências pela perda de seus entes queridos. A construção da verdade também significa um marco civilizatório, pois sociedades evoluem quando conhecem a própria história. 

Ao morrer, em 1976, Juscelino Kubitschek recebeu uma homenagem histórica na cidade que construiu. Carregado por milhares de candangos, o féretro com o corpo do ex-presidente percorreu as avenidas de Brasília, na primeira manifestação política relevante da capital federal. Em nome da democracia, é justo e necessário que se estabeleça a verdade sobre este grande brasileiro.

 

 

Mais Lidas