OPINIÃO

Tristeza, alegria, calmaria e rótulos

"Hoje entendo que saber daquele tropeço tem mais a ver com a pressa de quem empurra do que sobre a riqueza de quem caiu. Estar "misturado" não é um crime; é a nossa forma mais honesta de existir diante de quem nos julga sem nos conhecer por inteiro"

A vida tem uns tropeços chatinhos. Às vezes, você é o alvo. É normal, ocorre com todos. Mesmo assim, é estranho. Surge uma explosão complexa de sentimentos. Há a tristeza pela decepção, a alegria quase irônica por ser notado, a preocupação sobre como lidar com as repercussões e a calmaria necessária de quem tenta superar. Tudo, ao mesmo tempo, misturado. Esse é o maior problema: a permissão de viver diversos sentimentos. No mundo atual, parece um crime. Sem um rótulo definido de "como estou me sentindo", é como se as emoções fossem erradas ou inválidas por não serem lineares.

Lembro que na infância, durante as aulas na Escola Parque 308 Sul (e não "da" 308!), tínhamos uma atividade curiosa. Os professores entregavam um papel com diversas carinhas, as famosas "smilies" antes mesmo da era digital. Os rostos iam mudando ao longo da folha A4 branca: do mais radiante para o mais melancólico. Entre dezenas de expressões, os adjetivos iam elucidando o que dizia o formato franzido da boca e dos olhos. "Feliz", "contente", "indiferente", "cabisbaixo", "triste". Era uma ordem lógica, quase matemática, de estados de espírito.

O objetivo era colorir o rosto que melhor ilustrasse o humor no fim daquela tarde. A timidez nunca me permitiu perguntar em voz alta, mas a dúvida surgia persistente em minha cabecinha: "E se eu estiver triste e feliz ao mesmo tempo?". A atividade era clara, quase impositiva: "Preencha uma emoção". Apenas uma. Não havia espaço para a dualidade ou para o degradê de sensações que nos compõe.

Enquanto esta semana começa, você pode estar chateado por encarar mais sete dias de rotina maçante. Ao mesmo tempo, sente-se animado porque na quarta-feira tem planos de reencontrar aquele amigo que não vê há tempos. Há a ansiedade pelo resultado de uma prova na sexta e a ponta de tristeza porque o vencimento da parcela do fogão se aproxima. Mas, logo em seguida, surge o alívio: afinal, é a última parcela. Somos esse amontoado de pequenos eventos e grandes reações.

Às vezes, este mundo é corrido demais, quase atropelado. É tanto problema, escândalo e gritaria que o silêncio interno se torna artigo de luxo. A dica para seguir nadando nesse mar de loucura é aceitar as próprias marés, sejam elas altas ou baixas. O "como estou me sentindo" é um território vasto e contraditório, onde a angústia pode coexistir com a esperança.

Vivemos a ditadura da felicidade instantânea e legível. Nas redes sociais, precisamos estar "maravilhosos" ou "em luto". Não há espaço para o "médio", para o "estou processando" ou para o "estou feliz, mas cansado".

Hoje, entendo que saber daquele tropeço tem mais a ver com a pressa de quem empurra do que sobre a riqueza de quem caiu. Estar "misturado" não é um crime; é a nossa forma mais honesta de existir diante de quem nos julga sem nos conhecer por inteiro.

 


Mais Lidas