A recente visita de Donald Trump à China ocorre em um momento-chave da reconfiguração do sistema internacional. Mais do que um episódio diplomático, o encontro revela tensões profundas de uma transição histórica que Giovanni Arrighi já havia antecipado: o deslocamento gradual do centro dinâmico da economia mundial para a Ásia, liderado pela ascensão chinesa.
Em Adam Smith em Pequim, publicado em 2007, Arrighi já argumentava que a estratégia dos neoconservadores dos EUA acabaria por acelerar a transição de poder mundial. Ao citar um artigo publicado por Robert Samuelson, no The Washington Post (2004), ele destacou: "Tudo o que sabemos com certeza é que realmente não sabemos. (...) No caso de um país menor, nossa ignorância não importaria tanto. No caso da China, é um tanto apavorante".
Ao contrário de ciclos hegemônicos anteriores, marcados por expansão militar e imposição unilateral, a trajetória chinesa combina crescimento econômico, pragmatismo político e construção de redes de interdependência. É a partir dessa lógica que se deve interpretar a recepção de Pequim a Trump. A liderança chinesa reconhece que as políticas externa e comercial de Trump, além de erráticas, são agressivas, mas evita responder na mesma chave. Em vez disso, aprofunda seus vínculos com países do entorno asiático, além de África e América Latina, consolidando sua influência de forma sistêmica.
Nesse contexto, Xi Jinping optou pela contenção simbólica. Ele evitou utilizar a visita de Trump na "própria casa" para se apresentar como uma potência global, já que isso acirraria a disputa e poderia alimentar a ofensiva estadunidense. A escolha foi clara: reduzir ruídos e evitar escaladas desnecessárias, mantendo a competição dentro de parâmetros controláveis.
Essa cautela, no entanto, convive com firmeza em temas considerados inegociáveis. A questão de Taiwan permanece no centro dessa postura. E, nesse tema, Xi Jinping foi direto: a China nunca aceitou discutir o status de Taiwan senão como uma ilha rebelde e, ao longo dos últimos 20 anos, construiu um aparato de defesa que impõe dissuasão a qualquer tentativa de independência por parte da ilha. Ao reiterar essa posição diante dos Estados Unidos, Xi Jinping delimita um limite estratégico claro: soberania territorial não é objeto de barganha.
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Outro ponto sensível da visita foi o Oriente Médio. Diante das dificuldades do governo Trump na guerra contra o Irã, Washington tenta envolver Pequim na gestão da crise, especialmente no que diz respeito ao Estreito de Ormuz. A assimetria de interesses, porém, é evidente. Enquanto os EUA reduziram sua dependência energética da região, para a China a situação é o oposto. Ainda assim, Pequim evita se engajar diretamente na questão nuclear iraniana, preservando sua posição estratégica e mantendo o fluxo de petróleo do Irã. Trump pediu que a China compre mais petróleo dos EUA, hoje os maiores produtores com cerca de 12 milhões de barris por dia.
A dimensão tecnológica, por sua vez, evidencia a continuidade da rivalidade estrutural. Desde o último encontro entre Trump e Xi Jinping, em 2017, os Estados Unidos intensificaram esforços para bloquear ou retardar a liderança tecnológica chinesa. Frente a isso, a prioridade de Xi Jinping é impedir que o acirramento da disputa escape ao controle e comprometa a estabilidade global necessária ao projeto de ascensão chinesa. É justamente na disputa pela liderança tecnológica que a China desafia mais o poderio estadunidense. Com uma comitiva composta de cerca de 25 proprietários de grandes corporações, em especial do setor de tecnologia avançada, Trump tentou cooptar Pequim para seguir a sua liderança. Saiu nesse tema de mãos abanando. Diante dos seus olhos, o presidente dos EUA pôde entender o porquê da resistência chinesa à sua proposta: o desenvolvimento tecnológico chinês deixou Trump e sua comitiva vidrados.
A partir da perspectiva de Arrighi, o cenário atual não representa apenas uma disputa entre potências, mas uma transição sistêmica em curso. A China não busca replicar o modelo hegemônico norte-americano, baseado na primazia militar, mas consolidar uma centralidade ancorada na economia, na infraestrutura e na diplomacia.
A visita de Trump, nesse sentido, tem valor mais revelador do que transformador. Expõe o contraste entre uma potência estabelecida que reage de forma defensiva e, por vezes, errática, e uma potência emergente que avança com cálculo estratégico e visão de longo prazo. Em meio a tensões e disputas, é essa diferença de abordagem que pode definir os contornos da ordem internacional nas próximas décadas. E esses três dias de Trump na China mostraram como os EUA estão longe da estratégia defendida por Henry Kissinger, segundo a qual o melhor para os EUA seria uma ordem mundial reformada, sob a sua liderança e com a cooptação da China. E a ignorância do governo Trump acerca da China "segue sendo apavorante".
