VISÃO DO CORREIO

O abandono urbano e seus efeitos

Conceito que vem ganhando espaço cada vez maior no debate global, o abandono urbano parece que ainda não motiva discussões como deveria pelo país

O Brasil apresenta um enorme desafio urbano a ser enfrentado, que aparece em estudos e no dia a dia da população. Na última quarta-feira, um ranking elaborado por meio da parceria de organizações foi divulgado mostrando as cidades com a melhor e a pior qualidade de vida em 2026. O levantamento avaliou 5.570 municípios nacionais e, ao final, apontou que as desigualdades regionais continuam profundas: 19 das 20 localidades mais bem colocadas ficam no Sul e Sudeste, enquanto 18 das 20 mais baixas estão no Norte e no Nordeste. Inúmeras são as questões que envolvem essas diferenças aparentemente somente geográficas, mas entre elas a falta de atenção básica é um ponto comum, independentemente da posição no mapa.

Conceito que vem ganhando espaço cada vez maior no debate global, o abandono urbano parece que ainda não motiva discussões como deveria pelo país. Reflexo físico de crises sociais e econômicas, além de falhas no planejamento público, o fenômeno merece atenção. Não é raro observar — seja em pequenas, seja em médias e seja em grandes cidades — a deterioração de imóveis residenciais ou comerciais desocupados, que representam riscos até para a saúde pelo potencial de transmissão de arboviroses, por exemplo. Além disso, as calçadas destruídas e a proliferação do lixo dificultam o deslocamento pelas ruas. Sem contar que endereços abandonados tendem a se tornar lugares de vulnerabilidade, aumentando a sensação de insegurança.

Como espaço de vivência coletiva, uma cidade deve ser pensada e gerida justamente para garantir o bem-estar e o direito à qualidade de vida de todos os habitantes. Em termos simples, precisa ter áreas estruturadas, lazer, transporte público e serviços distribuídos de forma justa para cumprir seu papel social.

Atentos a isso, governos ao redor do mundo têm desenvolvido iniciativas para combater o abandono por meio da revitalização e do retrofit. Outras aliadas decisivas são a tecnologia e a inteligência artificial. Centros urbanos que utilizam a conectividade e a análise de dados em tempo real para otimizar a infraestrutura e melhorar a eficiência, sem perder o foco na sustentabilidade, mostram ganhos em qualidade. A aplicação dos dados em decisões que transformam a vida dos moradores é mais um diferencial que alcança resultados significativos.

O Brasil, de Norte a Sul, não pode ignorar o custo do abandono urbano. Quando a cidade permite a existência de locais degradados, ela desperdiça o dinheiro do contribuinte e torna hostil o ambiente para os moradores. Tornar os municípios mais agradáveis exige coragem política para aplicar métodos inovadores e, em muitos casos, fazer a lei ser cumprida — como os códigos de posturas. Revitalizar bairros por meio de projetos de habitação de interesse social e iniciativas de uso misto — que combinam moradia, comércio e lazer — pode oxigenar as cidades como um todo, gerando empregos e contribuindo para a segurança nas ruas.

As cidades do futuro — inteligentes, sustentáveis e com qualidade para todos — precisam começar a sair dos projetos no presente. Um primeiro passo que o país precisa dar nesse sentido é o de recuperar o que está esquecido há anos. Sem isso, humanizar seus municípios, garantindo dignidade para a população, fica um objetivo distante.

O sucesso de uma nação passa também pela maneira como ela cuida do seu território. Nesse quesito, o Brasil tem muito a realizar se quiser colocar as suas cidades em condição de responder às necessidades de cada cidadão e, paralelamente, dar um salto de desenvolvimento.

 

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