Desenvolvimento social

População de rua no DF enfrenta risco extremo de homicídio e pressiona políticas públicas

O DF convive com expansão da população em situação de rua e políticas públicas de acolhimento pressionadas pela alta vulnerabilidade. Ao todo, são 3.521 pessoas nessa condição de exclusão e violência

Taguatinga está entre as três regiões com maior concentração de pessoas em situação de rua do DF -  (crédito:  Minervino Júnior/CB)
Taguatinga está entre as três regiões com maior concentração de pessoas em situação de rua do DF - (crédito: Minervino Júnior/CB)

Sob o piso de pedras portuguesas, cartão-postal de Taguatinga, a Praça do Relógio divide o espaço nobre em dois. De um lado, símbolo histórico e ponto de integração entre comércio, transporte e lazer. No outro, pessoas sentadas sob lençóis gastos e a rotina de quem transformou a praça em abrigo. A cidade está entre as três regiões com maior concentração de pessoas em situação de rua do DF — atrás do Plano Piloto e de Ceilândia. Ao todo, são 3.521 pessoas nessa condição, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes). O cenário pressiona o poder público e testa, na prática, a eficácia das políticas de acolhimento.

Expostos a uma combinação de abandono, violência e ausência de proteção contínua, esses moradores também figuram entre os grupos mais vulneráveis à morte violenta no DF. Em 2025, 29 pessoas em situação de rua foram assassinadas, segundo o Anuário de Segurança Pública do DF 2026. Isso corresponde a uma taxa de 823,63 mortes por 100 mil habitantes. No caso da população fora dessa condição, o índice é de 7,95 por 100 mil. Na prática, pessoas em situação de rua tiveram, em média, 104 vezes mais risco de serem vítimas de homicídio no período.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

A situação de perigo, na avaliação de especialistas, exige o fortalecimento do conjunto de setores de políticas sociais, entre os quais abrangem assistência, saúde, educação, habitação, transporte e segurança pública. A efetividade reflete no repasse de recursos, na estrutura dos equipamentos e na composição da equipe multiprofissional.

  •  26/03/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Pessoas em situação de vulnerabilidade
    26/03/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Pessoas em situação de vulnerabilidade Minervino Júnior/CB/D.A Press
  •  26/03/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Pessoas em situação de vulnerabilidade
    26/03/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Pessoas em situação de vulnerabilidade Minervino Júnior/CB/D.A Press
  •  26/03/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Pessoas em situação de vulnerabilidade
    26/03/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Pessoas em situação de vulnerabilidade Minervino Júnior/CB/D.A Press
  •  26/03/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Pessoas em situação de vulnerabilidade
    26/03/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Pessoas em situação de vulnerabilidade Minervino Júnior/CB/D.A Press
  • Taguatinga está entre as três regiões com maior concentração de pessoas em situação de rua do DF
    Taguatinga está entre as três regiões com maior concentração de pessoas em situação de rua do DF Minervino Júnior/CB

A Sedes aposta em mecanismos de integração para o melhor acolhimento desse público. A população em situação de rua é acompanhada especificamente por 26 equipes do Serviço Especializado em Abordagem Social (Seas). Integram esses grupos pessoas que já estiveram, no passado, nas mesmas condições. "Essa atuação deles inclui evolução de atendimento, que é a criação de prontuário com abordagens frequentes, em que são oferecidos acolhimento e possibilidade de pernoite no Hotel Social", destacou a secretária-adjunta da Sedes, Jackeline Canhedo.

No DF, existem 90 unidades de acolhimento permanente. O número de vagas saltou 426% de 2019 para 2026 — 250 para 1.315. As unidades funcionam de forma diferente e são separadas por públicos, de acordo com perfil, idade, gênero e condições especiais. Para além da população de rua, o serviço é voltado a pessoas em situação temporária de desabrigo ou vítimas de violências ou violação de direitos.

Pernoite

Recém-inaugurado, o Hotel Social garante 400 vagas de pernoite para a população de rua. A estrutura passou a operar em julho de 2025, no Setor de Indústria e Abastecimento (SIA) e tem investimento anual de R$ 7,4 milhões, com contrato de cinco anos. Desde a fundação, o hotel recebeu mais de 40 mil pessoas.

Das 19h às 8h, os visitantes têm direito a jantar, dormitório, café da manhã, chuveiro quente e espaço para pets. A ideia de criar um ambiente para animais tem uma justificativa, explica a secretária. "A pessoa em situação de rua é muito solitária, confia muito pouco nas pessoas, então, a maioria deles tem pets. Percebemos que muitos não queriam ser acolhidos porque não teriam lugar para seus animais. Por isso, o Hotel Social tem um espaço exclusivo para os cachorrinhos deles e temos feito estudos para adequar este espaço também nas casas de acolhimento."

Indagada sobre o principal entrave para o acolhimento desse público, a secretária-adjunta frisa que o serviço não é tão simples como parece, e vai além da oferta de moradia ou benefício. "É preciso criar vínculo com aquela pessoa, mostrar as oportunidades que temos para que ela possa transformar sua vida", afirma.

Para 2026, a gestora aposta na abertura de mais uma unidade do Hotel Social e na inserção de pessoas em situação de rua no mercado de trabalho. No ano passado, a Sedes-DF e a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Renda (Sedet-DF) estabeleceram uma parceria para garantir que 2% das vagas de trabalho em licitações de serviços e obras públicas distritais sejam destinadas a esse público.

A portaria estabelece que a Sedes será responsável pelo cadastramento dos beneficiários, reunindo informações pessoais e sobre as qualificações profissionais. Além disso, também fará o acompanhamento socioassistencial dos contratados, garantindo apoio e suporte durante todo o período de trabalho. Caberá à Sedet coordenar a articulação com as empresas contratadas. A pasta receberá dos órgãos do governo os dados dos contratos firmados com empresas privadas e as informações sobre as vagas disponíveis. Será atribuição ainda o cadastro e a atualização das informações dessas pessoas no Sistema Público de Emprego (Sine), por meio da Agência de Atendimento ao Trabalhador.

 


  • Google Discover Icon
postado em 04/04/2026 06:00
x