ARTIGO

Docência: só se rompem velhas estruturas com humildade

Precisamos romper com dois históricos hiatos na formação de professores: entre as licenciaturas diversas e os cursos de pedagogia, e entre o ensino superior e a educação básica

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 Mozart Neves Ramos  titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP de Ribeirão Preto e professor emérito da UFPE

 Os últimos resultados do Exame Nacional do Desempenho de Estudantes (Enade) das Licenciaturas mostraram que apenas 20% dos estudantes desses cursos atingem o padrão considerado adequado, revelando a baixa qualidade da formação do professor no Brasil. Quando analisamos a parcela dos estudantes que têm o pior desempenho, abaixo do básico, a maioria deles é formada na modalidade do ensino a distância (EaD) — 32% contra 11% do presencial. Mas, quando olhamos para aqueles cujo desempenho está acima do básico, não há grande diferença entre aqueles que fizeram cursos presenciais e os que estudaram a distância — 30% contra 28%, respectivamente, conforme relatório “Enade Licenciaturas/Prova Nacional Docente”, do Todos pela Educação.

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Entendendo que os alunos concluintes que tiveram desempenho abaixo do básico não deveriam ir a uma sala de aula — ao menos em um país que leve a sério a educação —, analisando por curso, fica muito claro a supremacia dos cursos presenciais em relação aos cursos na modalidade EaD levando-se em conta aqueles estudantes que tiveram desempenho acima do básico, exceto nos cursos de pedagogia. Nesses últimos, os alunos acima do básico formados a distância são o dobro daqueles que frequentaram cursos presenciais. Ou seja, 34.876 do EaD acima do básico contra 18.180 do presencial. Das duas, uma: ou o relatório do Todos pela Educação se equivocou ao elaborar o documento, ou precisamos estudar melhor o que está acontecendo nos cursos de pedagogia no Brasil. Dados do próprio Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) já revelam que, dos estudantes que cursam pedagogia em nosso país, cerca de 40% ingressaram no ensino superior com uma nota abaixo de 450 pontos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Isso significa que não receberiam o certificado de conclusão do ensino Médio, mas, mesmo assim, estão no ensino superior!

Outro ponto que me preocupou bastante, na maioria dos textos que analisaram tais resultados, refere-se ao fato de que o problema da baixa qualidade da formação de professores está na oferta pelo EaD. Estudo o problema há mais de 20 anos, e tal modalidade, na minha opinião, apenas escancarou um grave problema da educação brasileira — basta ler pesquisas de 15-20 anos atrás que já mostravam, entre outras coisas, que nossos cursos de licenciatura não se voltam para as questões ligadas ao campo da prática profissional; não observam relação efetiva entre teoria e prática; têm uma característica fragmentária e um conjunto disciplinar bastante disperso; prevalecem neles os conhecimentos da área disciplinar especializada, em geral desarticulados com os fundamentos pedagógicos da ação docente; e os estágios constam formalmente das propostas curriculares, em geral sem planejamento e sem vinculação clara com as escolas. 

O país precisa de uma reforma profunda em tudo que está aí no campo da formação de professores — programas soltos e dispersos não vão mudar essa grave situação. Precisamos começar por atrair jovens para o magistério — pesquisas de diferentes instituições mostram que apenas 2 a 3% dos que concluem o ensino médio querem fazer algum curso de licenciatura no Brasil. 

Precisamos começar a atuar ainda no ensino médio — atraindo os melhores alunos. A formação prática deve se realizar desde o início do curso de licenciatura, propiciando estágios em escolas de tempo integral com condições adequadas de trabalho, de modo que, ao término do curso, esses alunos possam ingressar por certificação em tais escolas numa carreira promissora, associando níveis salariais crescentes a seu desenvolvimento profissional. 

Outro ponto fundamental, ao menos para mim: convidar professores inspiradores da educação básica para contribuir na formação prática dos estudantes das licenciaturas — trazer o “cheirinho” da escola para a universidade. E, preferencialmente, criar dentro das universidades um instituto de formação de professores, integrando professores das diferentes áreas vinculadas à docência e que, efetivamente, queiram se dedicar à educação básica.

Precisamos romper com dois históricos hiatos: entre as licenciaturas diversas e os cursos de pedagogia, e entre o ensino superior e a educação básica — esta pode nos ensinar muito, mas precisamos querer enquanto universidade, ter humildade para aprender. Mais do que citar e reverenciar Paulo Freire, precisamos colocar em prática suas ideias. Sobre humildade, disse ele certa vez: “a humildade exprime uma das raras certezas de que estou certo: a de que ninguém é superior a ninguém”.



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Por Opinião
postado em 04/06/2026 06:00
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