
Marco La Porta — presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB)
Quando um brasileiro sobe ao pódio olímpico, o país inteiro comemora. A medalha aparece na televisão, ocupa as redes sociais, emociona famílias e inspira milhões de jovens. Mas existe algo que nem sempre aparece nesse momento: a grande estrutura que existe por trás de cada conquista. Nenhum resultado esportivo nasce apenas do talento individual. Ele nasce de investimento, planejamento, formação, oportunidade e, principalmente, continuidade.
Hoje, mais uma vez, o movimento olímpico brasileiro acompanha com bastante atenção as pautas que estão sendo debatidas em Brasília. Talvez a sociedade não saiba, mas, infelizmente, o orçamento dedicado ao esporte está novamente ameaçado. E, quando isso acontece, não estamos falando de enfraquecer o alto rendimento. O que está em jogo é a preservação de uma das ferramentas sociais mais eficientes que o Brasil possui.
O esporte transforma vidas. E transforma de maneira concreta. Ele atua na educação, melhora indicadores de saúde pública, reduz vulnerabilidade social, gera pertencimento, fortalece comunidades e cria oportunidades para milhares de jovens brasileiros. Há estudos concretos que apontam que cada real de verba pública investida no esporte devolve cerca de R$ 13 para a sociedade. Poucas áreas conseguem produzir impacto tão amplo.
Quando uma criança encontra no esporte um ambiente seguro para crescer, ela ganha muito mais do que condicionamento físico. Ganha disciplina, convivência, autoestima e perspectiva de futuro. Quando um jovem encontra oportunidade por meio do esporte, toda a sociedade se beneficia.
O movimento olímpico brasileiro forma cidadãos antes dos campeões e, por isso, precisamos olhar com muita responsabilidade para medidas que possam enfraquecer nosso ecossistema esportivo.
A reforma tributária, por exemplo, trouxe preocupação para clubes associativos sem fins lucrativos, históricos formadores de atletas no Brasil. São clubes que mantêm modalidades olímpicas, projetos sociais, estruturas de treinamento e milhares de crianças e jovens em atividade esportiva. A aprovação da primeira etapa do projeto de lei complementar do Regime Especial de Tributação para Associações Desportivas (PLP do Retad) na Câmara dos Deputados, com apoio expressivo de mais de 420 parlamentares, mostrou que existe reconhecimento institucional da importância social e esportiva dessas entidades. O debate agora segue no Senado, juntamente com a PEC 6/2026, que concede mecanismos permanentes de proteção tributária para o setor.
Outro tema sensível é a PEC da Segurança Pública. Obviamente que reconhecemos plenamente a importância de fortalecer a segurança no país. Mas também precisamos compreender que o esporte faz parte dessa solução. A proposta aprovada na Câmara, que está agora no Senado, pode reduzir em cerca de 30% os repasses provenientes das apostas esportivas destinados ao setor esportivo, uma perda estimada em mais de
R$ 500 milhões por ano para atletas, clubes, confederações e projetos sociais.
Há de se ressaltar que esporte e segurança pública não são pautas concorrentes. Uma das premissas do esporte é justamente prevenir a violência, afastar jovens da vulnerabilidade e criar ambientes mais saudáveis para a sociedade.
Também acompanhamos de perto a discussão sobre a tributação de materiais esportivos importados. A Lei Geral do Esporte previa isenção de Imposto de Importação e IPI para esses equipamentos, normalmente muito específicos e que não possuem fabricação nacional. Isso significa que recursos que poderiam estar sendo investidos diretamente em atletas, formação de base e competições acabam comprometidos por despesas adicionais.
É importante deixar claro que o movimento olímpico brasileiro não está pedindo mais dinheiro. Não estamos defendendo privilégios. Estamos lutando para preservar investimentos que existem e hoje ajudam a transformar vidas em todo o país.
Enfraquecer o esporte significa enfraquecer uma das políticas públicas mais eficientes de inclusão, educação e desenvolvimento social que o Brasil possui.
Desde que assumimos o Comitê Olímpico do Brasil, em 2025, temos defendido a construção de uma verdadeira nação esportiva. E uma nação esportiva não se constrói apenas com medalhas. Ela se constrói ampliando o acesso ao esporte, fortalecendo a base, valorizando clubes, apoiando atletas e criando oportunidades permanentes para as novas gerações.
Nenhuma potência olímpica do mundo chegou ao topo sem investimento contínuo, visão de longo prazo e participação coletiva. O esporte precisa caminhar ao lado do poder público, da iniciativa privada e da sociedade. Como política de estado e permanente.
O Comitê Olímpico do Brasil (COB) segue trabalhando intensamente em Brasília, dialogando com parlamentares, ministérios e diferentes setores institucionais para defender o futuro do esporte brasileiro. E esse não é um compromisso apenas com atletas olímpicos. É um compromisso com milhões de cidadãos que enxergam no esporte uma oportunidade de desenvolvimento, cidadania e transformação.
Defender o esporte é defender oportunidades. É defender educação. É defender saúde. É defender segurança. É defender o futuro do Brasil.
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