ARTIGO

A luta encarniçada contra "houveram"

Quando até guardiões profissionais da língua aderem ao "houveram", mergulhamos oficialmente na barbárie sintática

. -  (crédito:  Caio Gomez/CB/D.A Press)
. - (crédito: Caio Gomez/CB/D.A Press)

Welber Barraladvogado, doutor em direito internacional pela Universidade de São Paulo (USP)

O colapso das civilizações raramente começa de forma dramática. Roma não caiu num único dia. O Império Britânico não se dissolveu rapidamente. A decadência chega devagar, infiltra-se nos detalhes, corrói discretamente os pilares da normalidade. No Brasil contemporâneo, ela começou, indevidamente, com uma epidemia acústica; uma praga verbal que atravessa redações, escritórios, podcasts, salas de reunião e painéis corporativos sobre liderança. Um horror gramatical: a praga do "houveram".

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O fenômeno ganhou capilaridade, não distingue classes sociais, profissões ou graus acadêmicos. O flagelo do "houveram" está no elevador corporativo, no LinkedIn motivacional e no comentarista político para quem "houveram cenários complexos". Outro dia, um sujeito de relógio suíço, sapato inglês e um óbvio histórico turbulento com a língua portuguesa afirmava, com convicção absoluta e português duvidoso, que "houveram desafios importantes no trimestre". 

"Houveram" faz parte da condição psicológica do sujeito que quer parecer cosmopolita, para apenas ser parvo. O auge da crise ocorreu recentemente diante da televisão. Um renomado âncora de destaque em uma rede televisiva que diz impor padrão, trajando terno italiano, gravata geometricamente alinhada, expressão de quem sabe exatamente onde ficam os Bálcãs, anunciou, com a voz firme e o olho fixo para a câmera: "Houveram manifestações violentas na capital".

Naquele instante, algo morreu no idioma. Não foi um erro gramatical, era a quebra de um pacto civilizatório. Quando até guardiões profissionais da língua aderem ao "houveram", mergulhamos oficialmente na barbárie sintática. Sabemos dos argumentos que se levantam, pedindo alguma condescendência para o uso cotidiano da língua. Sim, "a língua evolui"; "o uso consagra"; "a gramática é viva." Mas também o mofo evolui biologicamente e nem assim alguém iria sugerir que seja aplicado sobre o parmesão.

O verbo haver, no sentido de existir, é impessoal. Sem sujeito. Não negocia. Não vai a assembleias democráticas. Se não é usado como auxiliar, quando poderia ser substituído pelo verbo "ter" (como em "os brasileiros haverão de respeitar o idioma"), o verbo exige o singular, indiferente às paixões populares. Impõe-se o "houve problemas", "houve duas guerras mundiais".

"Houveram" prospera, porém, com a resiliência de barata pós-nuclear. Frequenta reuniões de conselho, opina em decisões judiciais, acompanha, regularmente, executivos que dizem pensar fora da caixa. Pense no drama do consultor ligado afetuosamente à gramática. Seja ele minimamente alfabetizado, tem o impulso de corrigir o interlocutor; mas a maturidade ensina prudência.

Corrigir o português de cliente é decisão temerária.  Até economicamente. Há muitos praticantes contumazes do "houveram" com invejável liquidez financeira; são capazes de destruir concordâncias verbais armados da tranquilidade com que aprovam — e desaprovam — contratos milionários. Confesso, melancólico, já ter acompanhado, em silêncio estoico, apresentações de futuros signatários de contratos cobiçados infectadas por "houveram alinhamentos estratégicos". O amor à Última Flor do Lácio abandona a própria dignidade quando é feito refém do fluxo de caixa.

Por tudo isso, movido pela solidariedade e o mais sincero espírito público, trago uma proposta responsável, ponderada: o uso de "houveram" deve ser permitido apenas em caso particular, quando empregado no sentido clássico de "lograr", "conseguir" ou "alcançar", e para enunciar a frase: "houveram de vencer em Corinto, ó bravos espartanos!"

Quem sabe, não seja necessário editar uma lei, apenas disseminar a regra, tão simples: qualquer cidadão poderá usar "houveram", mas apenas no caso de estar vestido com túnica helênica, sob a iluminação precária de um teatro municipal, empunhando uma espada de papelão e declamando algum trecho de tragédia grega.

Se o cidadão, a cidadã, não estiver nessa situação específica, que espero não ser habitual, deve limitar-se, definitivamente, ao uso do "houve" — essa conjugação elegante e singular.

A língua portuguesa e os tímpanos da República haverão de agradecer.

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Por Opinião
postado em 08/06/2026 06:00
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