ARTIGO

Memórias de outras Copas

Talvez viver a Copa seja mais do que apenas esperar pelo gol, mas também criar boas memórias com quem amamos.

Aos 3 anos, quando a Seleção conquistou o penta: uma das minhas fotos preferidas  -  (crédito: Arquivo pessoal)
Aos 3 anos, quando a Seleção conquistou o penta: uma das minhas fotos preferidas - (crédito: Arquivo pessoal)

Os torcedores fiéis que me perdoem, mas, quando o assunto é Copa do Mundo, sinto-me desiludida. Uma desesperançada crônica. Não me contagio com o momento do Hino, tampouco acredito em um resultado que seja, de fato, emocionante. Apesar de nadar contra a maré verde e amarela, percebo que, no geral, não há mais a mesma empolgação de antes — aquela euforia genuína acompanhada de um sentimento coletivo de orgulho, sabe? Falta algo.

É como se, em conversas triviais do dia a dia acerca do assunto, pairasse uma espécie de acordo coletivo no qual quase todos fingem acreditar em uma vitória. Afinal, em alguns ambientes, pode soar de mau tom desacreditar a Seleção, conforme me alertaram. Nesse contexto, o "bora, Brasil" e o "vem, hexa" vão sendo sustentados com o mesmo ânimo que exala um trabalhador CLT ao retornar para casa às 18h em um ônibus lotado.

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Longe de mim desanimar quem realmente tem fé. O papo aqui é com e para aqueles que, mesmo não sendo chegados em futebol, viam no campeonato a oportunidade de juntar a família, fazer barulho com vuvuzelas ou reproduzir dancinhas que se tornaram icônicas para a época, como o Waka Waka, da Copa de 2010, realizada na África do Sul. Se alguém me perguntar qual o hit deste ano, sinceramente, não saberei responder.

Quando a Seleção conquistou o penta, em 2002, eu tinha 3 anos. Em minha memória, guardo apenas flashes da família em frente à tevê numa manhã de domingo. Mas, ao rever as fotos, bate a nostalgia e, arrisco-me a dizer, até uma certa emoção.

Em uma das imagens, já um pouco desgastada, estou posando com meu pai no quintal de nossa antiga casa. Com os trajes devidos — ele com a camiseta azul e branca e eu, com uma regata verde e amarela —, celebramos. Em meus cabelos, uma pequena bandeira improvisada como lenço. Apesar do registro simples, essa é uma das minhas fotos preferidas da infância.

Dia desses, uma colega que é mãe comentou ter tentado demonstrar ânimo com os jogos (ela foi contemplada pelo acordo coletivo mencionado acima, coitada) para acompanhar a euforia dos filhos pequenos diante do campeonato. Achei bonito. Não por acaso, vejo muitos outros pais fazendo o mesmo. Ajudando a completar o álbum de figurinhas, vestindo a camisa, pintando a rua e, na sala de casa, criando os próprios hits para a Copa.

Talvez falte a nós, adultos meio amargurados com a Seleção, o gás para seguirmos criando boas lembranças desses momentos — uma necessidade que, com o tempo, foi deixada de lado por diferentes motivos. Talvez viver a Copa seja mais do que apenas esperar pelo gol, mas também criar boas memórias com quem amamos. No fim das contas, essa é a melhor das conquistas. 

 

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postado em 22/06/2026 05:01 / atualizado em 22/06/2026 05:27
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