Maria Conceição Lopes Fontoura — doutora em educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), representa a Fundação Cultural Palmares na Região Sul
Enquanto estudante de letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul na década de 1970, aprendi latim, língua da qual se originaram outras tantas, entre as quais a língua portuguesa. Ao escrever esse texto, lembrei da expressão latina "pluralia tantum". Palavras enquadradas nessa categoria são utilizadas somente no plural. Inexiste equivalência no singular. Ser fora da curva é ter características excepcionais, significa destacar-se por seus feitos. A presença de pluralidade, embora o vocábulo esteja grafado no singular, aparece em diferentes enfrentamentos às iniquidades presentes na sociedade brasileira.
Epistemicídio, genocídio e feminicídio são substantivos comuns escritos no singular, entretanto demonstram abundância. A filósofa e doutora Sueli Carneiro ressalta que o pensamento de pessoas negras é alvo de ataque e tentativa de desconstrução da potência e da veracidade daquilo que formula. A intelectual, na obra Minidicionário, assevera: "Através do epistemicídio — que é uma forma de sequestro, rebaixamento ou assassinato da razão —, as pessoas negras são anuladas enquanto sujeito do conhecimento e inferiorizadas intelectualmente ...".
Os enfrentamentos às diferentes tentativas de apagamento fazem parte do cotidiano de mulheres negras fora da curva. A matemática racista resiste à divisão dos espaços de brilho. É fundante lembrar que pessoas africanas e afro-brasileiras labutaram em todo o país, mesmo em estados de baixa presença negra. Santa Catarina é considerado o estado mais branco da Federação, entretanto conheceu mulheres excepcionais. Uma delas é Antonieta de Barros, que foi eleita, em 1934, a primeira deputada negra do estado de Santa Catarina e do Brasil, professora e jornalista, que instituiu o Dia do Professor no estado de Santa Catarina, defendeu a igualdade racial e os direitos das mulheres.
O estado catarinense tem outra marca negra potente. A rodoviária de Florianópolis recebeu o nome de Rita Maria. Mulher negra popular da cidade, filha de pessoas escravizadas. Ela viveu no final do século 19 e início do 20. Destacou-se por abrigar, oferecer comida a pessoas carentes e realizar benzeduras. A grandeza dessas mulheres negras possivelmente não faz parte do conhecimento do atual governador do estado barriga verde e de deputados estaduais. O mandatário estadual sancionou lei proposta pela Assembleia Legislativa vetando o Programa de Ações Afirmativas em instituições estaduais de educação superior. A Assembleia e o governador cometem epistemicídio ao não honrar Antonieta de Barros, defensora de educação inclusiva.
Estado vizinho, Rio Grande do Sul tem várias mulheres negras fora da curva, entre as quais destaco Luiza Helena de Bairros, intelectual e ativista da causa negra brasileira. Viveu muitos anos na Bahia e ocupou cargo no governo estadual. Nacionalmente foi secretária, com status de ministra, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, tendo sido signatária, junto com a presidenta Dilma Rousseff, da Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2013, que introduziu o Programa de Ações Afirmativas para ingresso em Instituições Federais de Ensino, e da Lei. nº 12.990, de 9 de junho de 2014, que inseriu a reserva de vagas para pessoas pretas em concursos públicos na Administração Pública Federal.
Recentemente, a Universidade Federal do Recôncavo Baiano, através da professora Dra. Martha Rosa Figueira Queiroz, na condição de curadora, recolheu material e registra a caminhada pública de Luiza Helena de Bairros na Exposição Lentes e Voz — Memória Viva da Luta Feminista e Negra no Brasil.
Ao falar dessas mulheres, lembramos da frase celebrizada da escritora Conceição Evaristo: "Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer". Mulheres negras fora da curva resistem às mortes física e intelectual e, independentemente de títulos acadêmicos, destacamos todas as mulheres que, ao longo dos tempos, vêm construindo o Brasil desde o século 16, quando raptadas de África, aportam no país e o constroem socioeconômica e culturalmente.
As descendentes dessas potências forjaram, nos últimos anos, duas Marchas Potentes, envolvendo os 26 estados e o Distrito Federal. A primeira ocorreu em 2015 com a presença de cerca de 50 mil partícipes e a outra aconteceu em 2025, com 300 mil mulheres bradando contra o racismo e a violência, exigindo direito à reparação, ao bem-viver e propondo, na agenda de lutas, que espaços de representação, no próximo período eleitoral, tenham mais mulheres negras. Axé, salve e viva às mulheres negras fora da curva!
Saiba Mais
