» JOSÉ NATAL Jornalista
A Seleção Brasileira, que, em 21 de junhode 1970, goleou a Itália por 4 gols a 1, no Estádio Azteca, na cidade do México, e conquistou o tricampeonato mundial para o Brasil, tinha em seu elenco todos os jogadores atuando em clubes brasileiros. O Santos Futebol Clube era o nosso cartão de visitas, e Pelé, a nossa estrela maior, orgulho nacional. Os gols de Pelé, Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto deram a vitória ao Brasil, enlouqueceram a torcida brasileira e cravaram no coração dos mexicanos e de torcedores do mundo inteiro a imagem do mais lindo futebol do globo, sem medo de ser feliz.
Lá se vão 56 anos, meio século e alguns detalhes e ensinamentos de como se pratica esse esporte que arrebata corações e mexe com a vidadas pessoas. Naqueles tempos, ainda sem o domínio da internet e curiosos sobre os avanços das garras do celular, nossa emoção era explicitada nos abraços, aplausos e manifestos regadosa chope e video tapes do dia seguinte.
Nossa Seleção, genuinamente brasileira, tinha o Santos como maior fornecedor de craques, cinco ao todo. Em seguida, Botafogo e Cruzeiro, comtrês cada um. Corinthians, Fluminense e Palmeiras, com dois, e ainda Flamengo, Grêmio, Portuguesa e São Paulo ajudando a Seleção.
Aqui no Brasil, de ouvido grudado no rádio e de olho na TV, o torcedor sabia de cor quem era quem na equipe, torcia por ele lembrando do clube. A corrente se formava e a emoção invadia corações e mentes, como tinha que ser.
Nas emissoras de rádio, nos alto-falantes das praças, ruas e becos, a música-hino de Miguel Gustavo, “Pra Frente Brasil”, praticamente determinava um carinhoso incentivo com o “Salve a Seleção”, virando um grito de apoio na busca da taça, que nos mirava com um olhar sedutor.
Ela veio e, com ela, uma delirante euforia, inundando nossas praças de verde e amarelo, arquivando por alguns dias páginas infelizes da nossa história política, num ufanismo sem fim. É daquela Seleção, e daquele naipe de jogadores, que bate uma saudade danada, uma ansiedade incontida e uma desagradável sensação de esperança perdida. Muitos com o pavor de perder, todos sem ter a quem recorrer.
Seria ingenuidade, ou imaturidade, negar o poderio econômico dos clubes da Europa e do Oriente, que, ano após ano, avançam sobre nossas revelações e fazem delas astros de primeira grandeza. Nesse particular, um estranho e cruel paradoxo: de um lado consagra, e de outro machuca.
Soa como dolorosa ironia que o país tantas vezes campeão do mundo se veja incapaz de segurar suas joias valiosas e delas abra mão unicamente porque o poderio do dinheiro fala mais alto. Quando o dinheiro, literalmente, tem voz ativa como mecanismo de troca, tudo se altera, ganha quem paga mais. Nossos clubes têm estampas, mas são endividados, pendurados na Receita, e outros tantos à mercê da boa vontade de empresários que sabem de futebol ou que assistem naTV. Sobre campo e vestiário, nunca ouviram falar.
Pode ser que sim, pode ser que não, mas, talvez, esteja no afastamento desses craques dos nossos campos que essa palpável descrença na nossa equipe tanto nos incomoda; persiste a desesperança. A distância afeta afagos e afetos. Afasta de muitos um elo que em algum momento existiria.
No campo de jogo, teremos 11 defensores, vários deles ainda sequer conhecidos por aqui, figurinhas difíceis de se achar para o álbum da coleção. O estrago que essa ausência nos causou privou-os de uma afeição, quem sabe, mais merecida. Mas a distância, é verdade, transforma um mal menor em grande ferida.
Cinco vezes campeã do mundo, outrora temida e de pronto sempre favorita absoluta por onde quer que passasse, a Seleção de hoje, sem carisma e carente de uma liderança marcante, estreiana Copa sem a chancela de favorita, quando muito de se manter como respeitável coadjuvante.
Não se trata de pessimismo, mas, sim, de uma realidade que nos incomoda. Há um senso comum, entre especialistas e admiradores, de que a nossa verdadeira Seleção já faz tempo está no exterior.
Nossa vontade é de que ela volte a ser brasileira. Nunca se torceu tanto neste país para queo futebol confirme, de fato, ser uma caixinha desurpresas. Que elas aconteçam nesta Copa. Serão bem-vindas. Que venham em forma de gols,a nosso favor.
