NOGUCHI Yasushi — embaixador do Japão no Brasil
Antes de ser designado como embaixador do Japão no Brasil, em dezembro do ano passado, atuei como cônsul-geral em São Paulo, entre 2017 e 2020. Por isso, já era familiarizado com a notável presença de descendentes de japoneses no país, lar da maior comunidade nikkei fora do Japão, com cerca de 2,7 milhões de nipo-brasileiros. Mas não pude deixar de me surpreender, ao assumir meu posto em Brasília, com a calorosa recepção que recebi da comunidade nipônica radicada na jovem capital, inaugurada muito depois de iniciada a histórica imigração japonesa no país.
Foi em 18 de junho de 1908, há exatos 118 anos, que o navio Kasato-Maru atracou no porto de Santos trazendo a bordo os primeiros 781 imigrantes vindos do Japão. O destino destes e de muitos outros japoneses que fariam a jornada para o Brasil nos anos seguintes era principalmente o interior de São Paulo e do Paraná, onde trabalhariam inicialmente em fazendas de café e, eventualmente, se estabeleceram como produtores de todo o tipo de culturas — introduzindo no país, inclusive, alimentos hoje apreciados pelo paladar brasileiro, como o pepino, o caqui, a abóbora japonesa e muitos outros.
Outras ondas migratórias levariam japoneses para diferentes territórios, como o Mato Grosso do Sul e a Amazônia, onde hoje colônias prosperam e se integram à cultura e à economia locais. Mas um momento histórico do processo de integração nipo-brasileiro precisa ser conhecido e lembrado pelos brasilienses: a discreta, porém essencial contribuição japonesa na transferência da capital brasileira para o Planalto Central.
Quando Brasília ainda começava a ganhar forma, o crescimento acelerado da população evidenciou um problema urgente de abastecimento. Seria necessário criar um cinturão verde, capaz de produzir hortaliças, frutas e outros itens essenciais para a alimentação local. Transformar o Cerrado vermelho em uma terra produtiva dentro de um prazo tão curto era um desafio que, dizem, o presidente Juscelino Kubitschek confiava especialmente aos habilidosos e experientes japoneses.
Mas, diferentemente dos primeiros imigrantes que vieram para o Brasil quase 50 anos antes, a chegada desses colaboradores não ocorreria a bordo de um navio. Seria em uma migração interna, de japoneses e descendentes que falavam o idioma local, tinham filhos brasileiros e prosperavam no país. As primeiras famílias que aceitaram o desafio de abastecer a Cidade Livre, onde atualmente é o Núcleo Bandeirante, se estabeleceram inicialmente no Riacho Fundo. Depois, outros nikkeis expandiriam o cinturão verde para locais como Vargem Bonita, Taguatinga e Brazlândia, onde hoje a identidade japonesa é historicamente associada à agricultura.
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Destaco como exemplo a Festa do Morango de Brazlândia, que neste ano completa seu 30º aniversário e teve a importância reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Tive a honra de testemunhar o lançamento, em parceria com a Associação Cultural Jornada Literária do DF, de um Inventário Participativo que, a partir de relatos da comunidade local, imortaliza o legado das famílias pioneiras — entre elas, nikkeis que alimentaram o DF desde o seu nascimento e continuam a fortalecer a agricultura familiar da região.
Para além da produção de alimentos, os filhos e netos desses pioneiros também prosperam nas mais diversas áreas, formando uma comunidade estimada em cerca de 30 mil nipo-brasileiros no Distrito Federal. Entre eles, funcionários públicos, professores, médicos, profissionais de destaque em diversas áreas e empreendedores. Há dois anos, a comercial 414/415 da Asa Sul passou a ser oficialmente reconhecida, por lei distrital, como Rua Japonesa, um nome inspirado pelo crescente número de estabelecimentos mantidos por famílias nipo-brasileiras, ou que comercializam os mais variados produtos importados do Japão.
As associações culturais, algumas delas fundadas antes mesmo da inauguração de Brasília, cumprem o importante papel de manter viva na capital a cultura trazida ao país pelos seus ancestrais, com o apoio da comunidade local que aprecia esses costumes. Convido todos os brasilienses a participarem, entre 26 e 28 de junho, da 14ª edição do Festival do Japão de Brasília, um dos maiores do país e que anualmente atrai cerca de 50 mil pessoas em três dias de celebração. Terei grande alegria em participar dessa festa, que não é exclusivamente japonesa nem brasileira: é nipo-brasiliense.
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