ARTIGO

Brasília e a ciência que ainda espera por uma casa

O que falta para Brasília finalmente construir seu Museu Público de Ciência e Tecnologia? Esses equipamentos são ambientes de descoberta, curiosidade, aprendizagem e diálogo entre ciência e sociedade

Fernando Oliveira Paulinoprofessor da UnB e presidente da Associação Latino-Americana de Investigadores da Comunicação (ALAIC); Gilberto Lacerdaprofessor da UnB e secretário regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência no Distrito Federal (SBPC-DF)

No próximo sábado, 20 de junho, às 11 horas, um grupo de pesquisadores, professores, estudantes e cidadãos ocupará simbolicamente um espaço já reservado na paisagem da capital: a área localizada entre o Planetário de Brasília e a Funarte, no Eixo Monumental. A mobilização, organizada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência no Distrito Federal (SBPC-DF), pretende chamar a atenção para uma pergunta tão simples quanto desconcertante: o que falta para Brasília finalmente construir seu Museu Público de Ciência e Tecnologia?

A pergunta é especialmente pertinente porque Brasília talvez seja a única grande capital do mundo que reúne tamanha concentração de universidades, centros de pesquisa, agências governamentais, organismos internacionais e instituições científicas sem possuir um museu público de ciência e tecnologia à altura de sua importância política, educacional e cultural.

A ausência desse equipamento torna-se ainda mais contraditória quando lembramos que a própria ideia de Brasília esteve associada à educação, à ciência e à inovação desde sua origem. Os idealizadores da Universidade de Brasília (UnB), especialmente Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, compreendiam que a construção da nova capital deveria estar acompanhada da criação de instituições capazes de democratizar o conhecimento e ampliar o acesso da população à cultura científica.

Ao longo das décadas, essa visão inspirou projetos, estudos, concursos, decretos e anúncios oficiais. Houve propostas arquitetônicas, definições de áreas para implantação e sucessivas promessas de construção. Entretanto, passados mais de 60 anos da inauguração da cidade, o museu continua existindo apenas nos documentos e nas intenções.

Enquanto isso, cidades de diferentes portes e contextos investiram em museus de ciência como espaços estratégicos para a formação cidadã. Esses equipamentos não são apenas locais de exposição de objetos ou experimentos. São ambientes de descoberta, curiosidade, aprendizagem e diálogo entre ciência e sociedade. São lugares onde crianças podem ter seu primeiro contato com a pesquisa científica, onde jovens encontram inspiração para seguir carreiras nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, e onde adultos podem compreender melhor os desafios contemporâneos relacionados à saúde, ao meio ambiente, à inteligência artificial, à energia ou às mudanças climáticas.

Em uma época marcada pela circulação acelerada de desinformação, pela proliferação de teorias conspiratórias e pela crescente complexidade dos problemas públicos, a cultura científica tornou-se um elemento fundamental para a própria democracia. Museus de ciência ajudam a desenvolver o pensamento crítico, a valorização das evidências e a capacidade de compreender como o conhecimento científico é produzido.

Brasília tem condições excepcionais para sediar um equipamento dessa natureza. Além da UnB, a cidade abriga instituições como a Embrapa, a Fiocruz Brasília, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o Instituto Nacional de Meteorologia, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, além de ministérios, fundações e agências que produzem ou financiam conhecimento científico em escala nacional.

Um Museu Público de Ciência e Tecnologia poderia funcionar como ponto de encontro entre essas instituições e a população. Poderia integrar exposições permanentes e temporárias, laboratórios interativos, observatórios, atividades para escolas, festivais científicos, programas de formação de professores e ações de divulgação científica voltadas para diferentes públicos. Poderia, inclusive, tornar-se um importante atrativo turístico e educacional para visitantes de todo o país.

Mais do que uma obra de infraestrutura, trata-se de um investimento estratégico em educação, cultura e desenvolvimento. Trata-se de oferecer à população do Distrito Federal um espaço público capaz de traduzir a produção científica em experiências acessíveis, inspiradoras e transformadoras.

O ato convocado pela SBPC-DF tem justamente esse significado. Não se trata apenas de reivindicar um edifício. Trata-se de defender uma visão de cidade que reconhece o conhecimento como patrimônio coletivo. Trata-se de afirmar que a capital da República precisa também ser a capital da cultura científica.

Brasília foi concebida para simbolizar o futuro do país. Talvez tenha chegado a hora de concluir uma das promessas que permanecem inacabadas desde sua fundação. Construir o Museu Público de Ciência e Tecnologia não é apenas realizar um antigo projeto. É criar um legado para as próximas gerações e garantir que a ciência brasileira tenha, finalmente, um endereço público à altura da capital que representa a nação.

 

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