O Brasil guarda nas escolas um dos retratos mais cruéis de sua desigualdade histórica. O ensino, único caminho seguro para a transformação, ainda carrega barreiras que impedem o desenvolvimento, e o que está presente nas salas de aulas aparece, também, de norte a sul do país.
Segundo dados da Pnad Contínua Educação, divulgados pelo IBGE no último dia 15, a taxa de analfabetismo ficou abaixo de 5% pela primeira vez desde o início da série, em 2016. Apesar do avanço, a pesquisa aponta questões a serem resolvidas e traz um alerta preocupante: um em cada quatro jovens entre 14 e 19 anos afirma que não tem nenhum interesse em estudar — são 8,1 milhões deles que não se qualificam.
De acordo com o relatório, 8,4 milhões de pessoas com 15 anos ou mais não sabiam ler e escrever em 2025 — o que corresponde a 4,9% da população. Em 2024, a taxa era de 5,3%, número que representa uma redução de cerca de 592 mil analfabetos em um ano. O problema é que o quadro segue apresentando fortes diferenças regionais, raciais e etárias, além do descaso da juventude com o ensino.
O levantamento do IBGE confirma que é preciso encarar um impasse social vergonhoso, perigoso e que tem perfil definido. Mais da metade dos analfabetos do país está no Nordeste: 4,8 milhões de pessoas, o equivalente a 57,4% do total nacional. Já as desigualdades raciais também permanecem expressivas. Entre os brasileiros de 15 anos ou mais, 2,8% dos brancos eram analfabetos em 2025, contra 6,5% dos pretos ou pardos.
Na população de 60 anos para a frente, a distância ficou ainda maior: a taxa foi de 7,3% entre brancos e de 20,6% entre pretos ou pardos. Entre os idosos, um dos desafios é promover a busca de todos os que não tiveram a oportunidade de frequentar um colégio e, ao mesmo tempo, mostrar que ainda há tempo. Em 2025, essas pessoas representavam 58% dos analfabetos — 4,8 milhões que não sabiam ler e escrever um bilhete simples.
Esse retrato do Brasil precisa ser colocado sobre a mesa e debatido. Os erros cometidos no passado têm de ser eliminados do processo, e formas eficientes devem começar a fazer parte do conteúdo voltado para a igualdade do ensino. Para garantir o projeto de futuro com desenvolvimento e competitividade global, o primeiro passo é não aceitar que o jovem deixe de acreditar no poder da educação como ferramenta para melhorar de vida e ajudar a construir uma sociedade justa.
O direito à educação, garantido pela Constituição de 1988, não pode ser uma loteria baseada no endereço, na raça, na idade e na renda. Acabar com os abismos não é apenas um imperativo moral: é a única saída para o país escapar da armadilha de seguir amarrado a uma condição muito aquém de sua capacidade.
Para transformar essa realidade, o ponto de partida tem de ser uma mudança na lógica de investimentos e de políticas públicas. Redistribuir os recursos, enfrentar a desvalorização sistemática dos professores, expandir as escolas em tempo integral em locais de alta vulnerabilidade social e fortalecer o ensino técnico integrado ao nível médio são medidas fundamentais.
A educação é um dos investimentos mais estratégicos, e garantir isso é um dever que o país ainda precisa cumprir. As desigualdades históricas, que seguem custando caro para os brasileiros, não podem se somar à desmotivação que a pesquisa do IBGE escancara. A experiência já mostrou que não se alcança uma sociedade saudável e produtiva sem colocar a educação como prioridade. Nesse quesito, o Brasil precisa se esforçar se quiser atingir o conceito máximo.
