
Adão Villaverde - Engenheiro e professor de gestão do conhecimento e da inovação da Escola Politécnica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)
Os instrumentos mais poderosos do século 21 são os chamados dispositivos de semicondutores, verdadeiros cérebros do saber que desenham e redesenham a sociedade dos nossos tempos, controlam os supercomputadores, os eletroeletrônicos de consumo, a transição energética, a descarbonização, a inteligência artificial (IA), chegando aos instrumentos de defesa dos países e aos da geopolítica global das nações. Eles são o quarto produto mais comercializado do mundo, vêm depois do petróleo bruto, do refinado e dos automóveis, mas são estruturantes para os três que o precedem.
Mesmo que nem todo mundo perceba, catalisados por todos esses elementos referidos acima e muitos outros, como a recente tragédia pandêmica, está em curso globalmente o que se nomina de "chips war", que nada mais é que a disputa pela expertise e pelo domínio da matéria-prima e a manufatura desses dispositivos.
Quem controla a produção desses minúsculos mecanismos dita os avanços científico-técnicos do mundo, o tema da soberania das nações, seu desenvolvimento industrial, chegando à segurança dos países e, sobretudo, ao poder militar global e, claro, descortinam espaços comerciais absolutamente extraordinários para os seus negócios.
A manufatura completa dessa cadeia se subdivide em três etapas: desenvolvimento e projeto, fabricação e encapsulamento, e testes. E, claro, depois vêm seus objetivos finais, que são a comercialização e seu uso.
- Leia também: Ciência, soberania e o Brasil que queremos
Tivemos recentemente em Porto Alegre, no Tecnopuc, parque tecnológico da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), o Simpósio Latinoamericano e Caribenho de Semicondutores, nominado SemiCon-LAC 2026. Evento ocorreu em momento estratégico para o setor, sobretudo de reestruturação na sua cadeia global, onde a descentralização, a resiliência, as parcerias e os investimentos, abrem oportunidades únicas para regiões, sobretudo às que têm requisitos e elementos-chave para seu desenvolvimento. Período também marcado pela crescente demanda por esses produtos e pela busca de países e regiões, por maior autonomia tecnológica, fortalecimento industrial e inserção nessa cadeia de valor.
O evento articulou quatro elementos fundantes: foi intensivo em business, potencializou nossas autonomias e independências científico-técnicas, reafirmou a necessidade da soberania geopolítica das nações no tema e se colocou como uma resposta de competências estratégicas, para emergirmos de uma vez por todas na cadeia global de SemiCon.
A forte presença e a contribuição dos países latino-americanos e caribenhos no simpósio — sobretudo pela articulação que temos de alguns anos, aliadas ao comparecimento de players globais na área ( nove países) — deram robustez ao encontro. Evidenciando que existem muitos espaços para cooperação, transferência tecnológica, formação e qualificação de recursos humanos, investimentos nessas regiões e também na esfera dos negócios, que era um dos eixos principais do evento.
Por seus resultados, o SemiCon-LAC 2026 consolidou-se como um importante espaço de discussão e compartilhamento de conhecimento sobre semicondutores na América Latina e Caribe. E a presença de especialistas internacionais permitiu o intercâmbio de experiências entre países que ocupam posições relevantes na indústria global, proporcionando aos participantes uma visão abrangente sobre tendências, desafios e oportunidades para a região.
O principal legado do evento foi a formalização da Declaração de Porto Alegre, constituída dos seguintes pilares: cooperação regional e internacional, fortalecimento de capacidades locais e intercâmbios, autonomia e resiliência do setor, parcerias e investimentos, mecanismos permanentes de gestão e promoção de negócios.
A iniciativa estabelece bases para a construção de uma agenda permanente de cooperação entre países, instituições e empresas da América Latina e Caribe, voltadas ao fortalecimento do setor de semicondutores com alianças globais em todas suas esferas.

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