
Um ano depois, o anúncio de novas tarifas sobre produtos brasileiros pelo governo dos Estados Unidos marca o início de uma fase turbulenta para a economia nacional. A imposição de taxas adicionais de 25% sobre setores como etanol, maquinário e vestuário, a partir de quarta-feira da semana que vem, extrapola o terreno técnico das disputas comerciais. O governo Trump escolheu transitar por temas de soberania brasileira, como o funcionamento do sistema financeiro local e a regulação das plataformas digitais.
A justificativa apresentada pela Casa Branca causa estranheza pelo ineditismo. Utilizar o sucesso do Pix e as decisões do Supremo Tribunal Federal sobre redes sociais como pilares para uma sanção econômica é um movimento que redefine os termos do relacionamento bilateral. O sistema de pagamentos instantâneos, que se tornou a espinha dorsal do consumo no país, é o alvo mais sensível. Dados de mercado comprovam essa importância. O Pix é o meio preferencial para 76% dos brasileiros e responde por quase metade das transações no e-commerce. A rapidez, a praticidade, o custo para o usuário e a segurança que consolidaram a ferramenta são ativos que contrariam interesses de gigantes financeiros do Hemisfério Norte.
Há uma seletividade estratégica nas tarifas impostas. Os Estados Unidos preservaram itens dos quais são dependentes, como petróleo, café, celulose e proteínas animais, enquanto penalizaram a indústria manufatureira e bens de capital. Essa escolha revela um pragmatismo comercial que pouco se importa com o discurso da livre concorrência. Quando o lobby doméstico americano encontra espaço para ditar o ritmo de sanções, o resultado é a exportação de instabilidade para o setor produtivo brasileiro, atingindo a ponta final da cadeia: o emprego e o custo de vida.
O episódio ocorre sob a sombra da corrida eleitoral. A oposição, na tentativa de capitalizar o desgaste da administração, viu o efeito reverter-se nas pesquisas de opinião. A tese de que integrantes da família Bolsonaro articularam o pedido de sanções em Washington encontrou ressonância em 51% do eleitorado, segundo a última pesquisa Quaest/Genial. A tentativa de instrumentalizar uma potência estrangeira para obter vantagens políticas internas mostra-se uma aposta de alto risco. Na ciência política, é voz corrente de que interferências externas em assuntos domésticos costumam fortalecer sentimentos nacionalistas. O custo dessa estratégia é sentido pela população, com 63% dos brasileiros manifestando receio de que as medidas interfiram diretamente na economia doméstica.
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A resposta oficial brasileira busca um equilíbrio delicado. O governo sinaliza o uso da Lei da Reciprocidade, o acionamento da Organização Mundial do Comércio e a intensificação de acordos comerciais com outros blocos, como a União Europeia. Essas medidas configuram uma tentativa de manter a previsibilidade em um ambiente externo que, a cada ciclo político em Washington, torna-se mais imprevisível. A soberania, neste contexto, não é apenas um conceito diplomático, mas a capacidade de blindar o mercado interno contra ataques que misturam protecionismo comercial e agendas ideológicas alheias.
A busca por culpados e a divisão do debate público em trincheiras ideológicas obliteram a gravidade do cenário. A celebração de uma retaliação externa por parte de qualquer grupo político é um erro estratégico. Em uma disputa econômica dessa escala, não há o que compense a perda de postos de trabalho ou a elevação dos preços para o consumidor.
Por fim, uma pergunta não pode deixar de ser feita. Nos últimos 15 anos, os Estados Unidos acumularam um superavit comercial com o Brasil de US$ 424 bilhões. O que os EUA querem mais?
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