ELEIÇÕES 2026

Tarifaço de Trump: o custo político da nova crise com os EUA

A economia nacional entra em fase turbulenta com as novas taxas do governo Trump. A justificativa apresentada pela Casa Branca, no entanto, causa estranheza pelo ineditismo

"O governo Trump escolheu transitar por temas de soberania brasileira, como o funcionamento do sistema financeiro local e a regulação das plataformas digitais" - (crédito: Flow)

Um ano depois, o anúncio de novas tarifas sobre produtos brasileiros pelo governo dos Estados Unidos marca o início de uma fase turbulenta para a economia nacional. A imposição de taxas adicionais de 25% sobre setores como etanol, maquinário e vestuário, a partir de quarta-feira da semana que vem, extrapola o terreno técnico das disputas comerciais. O governo Trump escolheu transitar por temas de soberania brasileira, como o funcionamento do sistema financeiro local e a regulação das plataformas digitais.

A justificativa apresentada pela Casa Branca causa estranheza pelo ineditismo. Utilizar o sucesso do Pix e as decisões do Supremo Tribunal Federal sobre redes sociais como pilares para uma sanção econômica é um movimento que redefine os termos do relacionamento bilateral. O sistema de pagamentos instantâneos, que se tornou a espinha dorsal do consumo no país, é o alvo mais sensível. Dados de mercado comprovam essa importância. O Pix é o meio preferencial para 76% dos brasileiros e responde por quase metade das transações no e-commerce. A rapidez, a praticidade, o custo para o usuário e a segurança que consolidaram a ferramenta são ativos que contrariam interesses de gigantes financeiros do Hemisfério Norte.

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Há uma seletividade estratégica nas tarifas impostas. Os Estados Unidos preservaram itens dos quais são dependentes, como petróleo, café, celulose e proteínas animais, enquanto penalizaram a indústria manufatureira e bens de capital. Essa escolha revela um pragmatismo comercial que pouco se importa com o discurso da livre concorrência. Quando o lobby doméstico americano encontra espaço para ditar o ritmo de sanções, o resultado é a exportação de instabilidade para o setor produtivo brasileiro, atingindo a ponta final da cadeia: o emprego e o custo de vida.

O episódio ocorre sob a sombra da corrida eleitoral. A oposição, na tentativa de capitalizar o desgaste da administração, viu o efeito reverter-se nas pesquisas de opinião. A tese de que integrantes da família Bolsonaro articularam o pedido de sanções em Washington encontrou ressonância em 51% do eleitorado, segundo a última pesquisa Quaest/Genial. A tentativa de instrumentalizar uma potência estrangeira para obter vantagens políticas internas mostra-se uma aposta de alto risco. Na ciência política, é voz corrente de que interferências externas em assuntos domésticos costumam fortalecer sentimentos nacionalistas. O custo dessa estratégia é sentido pela população, com 63% dos brasileiros manifestando receio de que as medidas interfiram diretamente na economia doméstica.

A resposta oficial brasileira busca um equilíbrio delicado. O governo sinaliza o uso da Lei da Reciprocidade, o acionamento da Organização Mundial do Comércio e a intensificação de acordos comerciais com outros blocos, como a União Europeia. Essas medidas configuram uma tentativa de manter a previsibilidade em um ambiente externo que, a cada ciclo político em Washington, torna-se mais imprevisível. A soberania, neste contexto, não é apenas um conceito diplomático, mas a capacidade de blindar o mercado interno contra ataques que misturam protecionismo comercial e agendas ideológicas alheias.

A busca por culpados e a divisão do debate público em trincheiras ideológicas obliteram a gravidade do cenário. A celebração de uma retaliação externa por parte de qualquer grupo político é um erro estratégico. Em uma disputa econômica dessa escala, não há o que compense a perda de postos de trabalho ou a elevação dos preços para o consumidor.

Por fim, uma pergunta não pode deixar de ser feita. Nos últimos 15 anos, os Estados Unidos acumularam um superavit comercial com o Brasil de US$ 424 bilhões. O que os EUA querem mais?

 

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postado em 17/07/2026 05:00
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