
Carlos Bocuhy — presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)
A onda de calor que atinge a Europa neste ano deve ser lida pelo Brasil como um alerta institucional grave. Não se trata apenas de episódio climático excepcional, nem de tragédia distante. França, Espanha, Reino Unido, Itália e outros países europeus já antecipam uma realidade que também ameaça cidades brasileiras: o calor extremo tornou-se uma emergência de saúde pública, educacional, urbana, econômica e social.
Na França e na Espanha, a onda de calor provocou até o momento milhares de mortes. A maioria das vítimas são pessoas idosas, especialmente acima de 65 anos. Hospitais recebem pacientes com hipertermia, desidratação, insuficiência cardiovascular, agravamento de doenças respiratórias, renais e metabólicas. Esse é o dado central: o calor mata.
Escolas fecham ou alteram horários. Transportes, redes elétricas e serviços públicos estão pressionados por temperaturas para as quais a infraestrutura não foi planejada.
Diferentemente de enchentes, deslizamentos ou incêndios, as ondas de calor nem sempre produzem imagens imediatas de destruição. Seus efeitos aparecem nos prontos-socorros, nas casas de idosos, nas residências superaquecidas, nas escolas sem ventilação, na exposição de trabalhadores ao calor.
O calor extremo aumenta risco de infarto, acidente vascular cerebral, insuficiência renal aguda, crises respiratórias, desidratação severa, distúrbios hidroeletrolíticos, complicações da diabetes, agravamento de doenças neurológicas e transtornos de saúde mental.
No Brasil, essa realidade exige mudança imediata de postura da administração pública. Ondas de calor precisam ser incorporadas aos sistemas de vigilância em saúde, à defesa civil, aos serviços de assistência social, aos planos diretores, às políticas habitacionais, aos programas de arborização urbana, às normas de construção, à gestão escolar e ao planejamento hospitalar.
Grande parte da infraestrutura brasileira foi construída para um clima que já não existe. Permanecer inerte diante dessa mudança é transferir para a população o custo da omissão estatal.
O custo da inação aparece no aumento das internações hospitalares, na sobrecarga do SUS, no crescimento da mortalidade evitável, na perda de produtividade, no aumento dos afastamentos do trabalho, no maior consumo de energia, na interrupção de aulas, na deterioração da infraestrutura urbana e no agravamento das desigualdades sociais.
Trabalhadores da construção civil, da agricultura, da limpeza urbana, da logística, do transporte e de serviços ao ar livre são diretamente afetados. O calor reduz a capacidade física, aumenta o risco de acidentes, exige pausas mais frequentes e diminui a produtividade.
Nas cidades, superfícies impermeáveis, ausência de arborização, telhados escuros, excesso de concreto e expansão urbana sem planejamento intensificam ilhas de calor.
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A experiência europeia demonstra outro ponto essencial: existe limite para a adaptação. Sem mitigação forte, isto é, sem redução consistente das emissões de gases de efeito estufa e contenção do aquecimento global, a adaptação pode se tornar progressivamente insuficiente.
A administração pública tem de agir antes de tragédias previsíveis. Isso significa criar planos municipais e estaduais de resposta a ondas de calor, com sistemas de alerta precoce, protocolos hospitalares, busca ativa de idosos isolados, proteção a pessoas em situação de rua, adaptação das escolas, distribuição de água, abertura de refúgios climáticos, revisão de horários de trabalho e aula e ampliação da arborização urbana.
A pergunta que se impõe às autoridades brasileiras é simples: quantas mortes serão necessárias para que o calor extremo seja tratado como emergência de saúde pública?
O custo da prevenção é alto, mas o custo da omissão é incomparavelmente maior. A adaptação climática torna-se, cada vez mais, política de sobrevivência, exigência sanitária, obrigação educacional, decisão econômica racional e dever constitucional.
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