
Não existe justificativa econômica, comercial ou diplomática aceitável para a tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros. Adotada com base na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana, a medida não corrige concorrência desleal nem responde a um desequilíbrio provocado pelo Brasil. Ao contrário: o país mantém deficit comercial com os Estados Unidos, fato que desmonta o argumento de que nossas exportações prejudicariam sistematicamente a economia norte-americana.
A decisão é essencialmente política. Washington reuniu acusações desconexas — do funcionamento do Pix às decisões judiciais sobre plataformas digitais, passando pelo etanol e pelo desmatamento — para justificar uma punição previamente definida. O governo Trump decidiu ampliar as barreiras protecionistas e, depois, procurou argumentos para enquadrar o Brasil.
Nas audiências realizadas nos Estados Unidos, 63 das 78 manifestações de empresas e entidades brasileiras e norte-americanas foram contrárias às tarifas. Muitas advertiram que os produtos brasileiros taxados são insumos utilizados pela indústria dos Estados Unidos. Encarecê-los significa elevar custos de produção, alimentar a inflação e transferir a conta ao consumidor norte-americano.
A seletividade das exceções confirma o caráter eleitoral do tarifaço. Café, carne, suco de laranja, petróleo e componentes aeronáuticos foram poupados porque sua taxação produziria aumentos perceptíveis nos preços. A Casa Branca protegeu os setores nos quais a retaliação provocaria maior desgaste interno. Máquinas, calçados, etanol e outros manufaturados, porém, foram sacrificados.
Mais absurda é a tentativa de apresentar o Pix como prática comercial desleal. Desenvolvido pelo Banco Central durante o governo Michel Temer, implantado na gestão de Jair Bolsonaro e ampliado sob Lula, o sistema é uma política de Estado. Reduziu o custo das transações, estimulou pequenos negócios, incluiu milhões de pessoas no sistema financeiro e aumentou a segurança das operações. É uma infraestrutura pública, não uma empresa artificialmente protegida para expulsar concorrentes estrangeiros.
Também é incongruente que Trump utilize o desmatamento como justificativa. O mesmo presidente retirou os EUA duas vezes do Acordo de Paris e relativiza compromissos ambientais. A preocupação ecológica é argumento de conveniência, empregado contra o Brasil, mas abandonado quando contraria os interesses da Casa Branca.
A tarifa de 25% transforma o Brasil no segundo país mais atingido pelas barreiras dos Estados Unidos, atrás apenas da China. Parceiro dos norte-americanos, chineses, europeus, árabes e africanos, o Brasil preserva uma tradição de autonomia diplomática incompatível com a lógica de subordinação que orienta a chamada "Doutrina Trump".
Isso não significa que o governo brasileiro deva responder com bravatas. A Lei de Reciprocidade Econômica é um instrumento legítimo, mas precisa ser usada como alavanca de negociação, não como gatilho de uma escalada. A firmeza na defesa da soberania deve caminhar ao lado do pragmatismo diplomático.
É particularmente reprovável que Flávio Bolsonaro e seus aliados procurem atribuir ao governo Lula a responsabilidade pela ofensiva. Divergências internas não autorizam representantes eleitos a defender pressões estrangeiras contra a economia nacional. Ao se associar politicamente ao tarifaço, o bolsonarismo prejudica exportadores, trabalhadores e empresários brasileiros, muitos dos quais integram a própria base eleitoral. O governo Lula pode ter cometido erros diplomáticos e deve manter abertos os canais de negociação. Nada disso, porém, legitima uma punição assentada em alegações contraditórias e interesses eleitorais.

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